No Peru, caminhão itinerante distribui oxigênio à população gravemente afetada pela Covid-19

Em plena pandemia de uma doença que ataca as vias respiratórias, o Peru vive há meses uma escassez de cilindros de oxigênio medicinal. Sem receber o insumo prometido pelo governo central, uma associação de prefeitos criou sua própria usina itinerante para recarga de cilindros de oxigênio medicinal. O gás é distribuído a familiares de pacientes de Covid-19.

De Wyloën Munhoz-Boillot, correspondente da RFI em Lima

A fila é grande na porta deste parque de San Juan de Lurigancho, bairro pobre de Lima. Lá dentro, homens carregam e descarregam cilindros de oxigênio de um grande caminhão, sob o olhar atento de Sandra Huamani. “Fornecemos oxigênio à população. As pessoas vêm com seus cilindros, nós os enchemos de graça e elas vão embora", conta a coordenadora da distribuição.

A jovem faz parte da associação de prefeitos do Peru, que criou esse caminhão para distribuição gratuita de oxigênio medicinal. O presidente da entidade, Álvaro Paz de la Barra, teve a ideia após perder o pai para o coronavírus em julho.

“Faltava oxigênio medicinal em todo o país. E eu disse a mim mesmo que como representante de uma autarquia, nós, os prefeitos, devemos atuar nessa luta pela vida. Por isso lançamos este projeto de solidariedade", explica.

Diante da falta de oxigênio medicinal no país, no início de junho, o governo nacional do Peru qualificou o produto como “recurso estratégico para a saúde” e anunciou a importação de oxigênio dos países vizinhos. No entanto, dois meses mais tarde a situação não melhorou.

A falta de material agrava a crise do coronavírus no país de 32 milhões de habitantes. O Peru soma mais de 590 mil contaminações, e 27.663 mortes pela Covid-19, de acordo com os dados da Universidade Johns Hopkins.

Famílias precisam comprar oxigênio para hospitais

Com a usina itinerante de recarga, Alvaro Paz de la Barra e sua equipe de voluntários percorrem os bairros de Lima e distribuem gratuitamente o oxigênio medicinal nos 43 bairros da capital.

No Peru, a escassez de produtos médicos nos hospitais é tamanha que as famílias dos pacientes devem comprá-lo por conta própria. O grande aumento na demanda provocou uma explosão de preços desta “mercadoria rara”.

Para essas famílias, a iniciativa da associação aparece como uma salvação.

“Graças a Deus, estamos recebendo oxigênio aqui. Meu tio está com Covid. Ele está em casa porque não tem mais lugar no hospital, eles não estão mais aceitando pacientes. Ele precisa de oxigênio, mas não existe ou custa muito dinheiro. É por isso que estamos aqui", afirma uma das pessoas na fila.

A história se repete entre as pessoas que aguardam sua vez desde as primeiras horas da manhã com cilindros de oxigênio vazios.

Devido à grande procura, o grupo teve de criar um protocolo de seleção para a distribuição do oxigênio. “Cruzamos as informações com as autoridades de saúde para determinar os casos mais urgentes. Infelizmente, dois dos pacientes selecionados de hoje sofriam de dificuldade respiratória aguda e morreram pela manhã", explica Sandra Huamani.

Diante da emergência, Alvaro Paz de la Barra pede que Lima crie novas formas de tratamento à população. “Esperamos que o governo se inspire em nosso modelo de atendimento para suprir a demanda de oxigênio em território peruano."