Máscaras chinesas vendidas no Brasil podem ser fruto de trabalho forçado de minorias étnicas

As máscaras importadas da China por empresas brasileiras poderiam ser provenientes de empresas que utilizam mão de obra de minoria étnica uigur, segundo reportagem do New York Times. Cerca de um milhão de pessoas desse grupo étnico estariam detidas em campos de “reeducação” na região de Xinjiang.

 


Texto por: Ana Carolina Peliz / RFI

Com o aumento da demanda de material de proteção devido à pandemia do novo coronavírus, as empresas chinesas aumentaram sua produção para responder à demanda interna e internacional, entre elas, do Brasil.

Algumas dessas fábricas estariam utilizando o trabalho da minoria étnica uigur, segundo revela uma reportagem do jornal New York Times.

O governo chinês desenvolveu um programa que envia os uigur, uma minoria muçulmana da região de Xinjiang, no noroeste da China, e outros grupos étnicos, para realizar trabalhos forçados em fábricas, segundo organizações de direitos humanos.

De acordo com a administração nacional de produtos médicos da China, apenas quatro empresas participam do programa na região de Xinjiang, mas a reportagem do jornal americano afirma que 17 empresas produzem o material com trabalho dos uigur. Em princípio, o equipamento produzido nestas empresas é para uso doméstico.

Ainda que seja difícil delimitar para que continentes o material é enviado, o New York Times retraçou o caminho feito por um carregamento proveniente da empresa chinesa Medwell, onde os uigur representam mais de 25% da mão de obra.  De acordo com o jornal, a empresa brasileira Medtrace, importou máscaras da Medwell.

Além do Brasil, a fábrica de equipamentos de proteção tem clientes nos Estados Unidos e Europa. O NYT também identificou outras empresas fora de Xinjiang que exportam máscaras e usam o trabalho da minoria étnica.

Campos de “reeducação”

O governo chinês detém pessoas dessa etnia em chamados “campos de reeducação” e diz ser necessário mantê-los sob controle, para evitar o “extremismo religioso”.  Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, o numero de pessoas detidas poderia chegar a 1 milhão. Estes campos existem desde 2014, mas as detenções se intensificaram em 2016 e hoje estão no centro das tensões entre Washington, Paris e Pequim.

Segundo testemunhas de ex-detentos no jornal Libération, nos centros de detenção os uigur devem cantar o hino do partido comunista chinês, recitar as ideias do presidente Xi Jinping e assistir a vídeos de propaganda. Eles também seriam proibidos de falar sua língua e de praticar sua religião e tradições, sob pena de punição e tortura.

Em um estudo publicado em 29 de junho, a fundação Jamestown denunciou a prática de esterilização forçada de mulheres desta população.

Segundo o The China Tribunal, um organismo independente que observa o respeito aos direitos humanos na China, poderia existir um tráfico de órgãos de pessoas detidas dos campos de reeducação.

Detenção inaceitável

O chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, disse que a detenção de pessoas da minoria étnica são “inaceitáveis” e denunciou “as detenções massivas” de uigur, “os desaparecimentos, o trabalho forçado, as esterilizações, a destruição do patrimônio cultural uigur e em particular dos lugares de culto.”

Diante da Assembleia Nacional francesa, na terça-feira (22) Le Drian pediu o acesso de observadores independentes a Xinjiang.