O capital dá bye bye ao Brasil


Com um líder sem capacidade de gestão política, econômica e sanitária, o País enfrentará a maior retração econômica da história sem os instrumentos necessários para suavizar a crise. Mais uma vez, os planos de decolar a República verde e amarela vão por água abaixo

Revista IstoÉ 
As  notícias não são nada animadoras. Os 16 meses do desastroso governo Bolsonaro afugentaram a esperança de que se iniciaria no Brasil uma nova era econômica após a queda do governo do PT. Não restou nada, nem um tênue fio que possa manter a expectativa de um futuro economicamente promissor para o País nos próximos anos. É verdade que a Covid-19 veio para prejudicar o já maltratado PIB brasileiro, mas ela é de longe a responsável por derretê-lo. Quem levou a sua destruição total é a lamentável gestão do presidente Jair Bolsonaro nas esferas política, econômica e sanitária, responsável pela gestão da pandemia. No começo do ano, antes mesmo do novo coronavírus, o crescimento esperado para o País já era baixo, de 0,8% ao ano. Na quarta-feira 13, o Ministério da Economia reviu o Produto Interno Bruto (PIB) de 2020 para taxas ainda mais baixas: retração de 4,7%, a pior da história.

As maiores agências de risco internacionais revisaram a nota do País em decorrência, principalmente, da sua instabilidade política. No início do mês, a Fitch Ratings reviu a avaliação para negativa. As agências Standard & Poors e a Moody’s também deram ao Brasil notas abaixo do grau de investimento, de “BB-” e “Ba2”, respectivamente. Além disso, o Indicador de Incerteza da Economia Brasil (IIE-Br), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), disparou para o maior nível da história, 210,5 pontos, em abril. A grande questão é a capacidade de o governo administrar o País, além do rombo fiscal que será deixado até o final do ano.

“Se o Brasil fosse um país mais estável, certamente atrairíamos mais investimentos. Atrapalha o fato de o presidente ser considerado um motivo de piada, exótico e pitoresco” Paulo Roberto Feldmann, professor de economia da USP (Crédito:Claudio Belli/Valor)

Devagar quase parando
Apesar de ter uma equipe econômica menos desastrosa que a de seus outros ministérios, a atuação do governo Bolsonaro é muito aquém do discurso da campanha eleitoral. As prometidas reformas administrativa e tributária, fundamentais para o equilíbrio fiscal do país, andam a passos de tartaruga desde antes da Covid-19. A reforma da Previdência, a grande vitória do ano passado, só saiu devido ao Congresso e à atuação do deputado Rodrigo Maia. Além disso, as divulgadas privatizações que acelerariam os investimentos no País foram praticamente esquecidas.
Mas não é só isso. A volta da crise de confiança passa principalmente pela figura do presidente: um homem em quem não dá para depositar fichas. Péssimo em se articular politicamente, em pouco mais de um ano de governo Bolsonaro trocou oito ministros. A mais marcante saída foi de Sergio Moro, que abriu a possibilidade de um novo impeachment. Diante da perspectiva de ser investigado pelo Supremo, o que precisa ser autorizado pela Câmara dos Deputados, o presidente se aproxima dos partidos do Centrão, apoio que terá de ser “comprado” a peso de ouro e custará caro ao País: a ala deseja um governo mais gastador, com auxílio emergencial em caráter permanente, e muitos cargos no governo. Soma-se, ainda, a dificuldade do governo em limitar os gastos do funcionalismo público. Os gastos com a Covid-19 também pesam. Um estudo feito pelo economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, estimou que a despesa extraordinária gerada com a pandemia pode ultrapassar R$ 900 bilhões, o que multiplicará em 10 vezes o déficit primário nas contas públicas projetado no começo do ano para 2020, para R$ 1,2 trilhão, ou seja, 100% do PIB. “Sem dúvida o investidor lá fora fica balançado com a instabilidade do País, principalmente política. Se esse governo fosse um pouquinho inteligente, teria condições de fazer uma tremenda gestão”, diz Paulo Roberto Feldmann, professor de economia da USP. Como consequência do risco, na semana passada o dólar bateu novos recordes nominais, de R$ 5,90. Caso haja impeachment, o real se desvalorizará ainda mais.

Para completar o desastroso cenário, há a trágica reação do presidente ao novo coronavírus. Além de trocar o ministro da Saúde e insistir que trata-se de uma “gripezinha”, o presidente passeou de Jet Ski quando o País batia a marca de 10 mil mortos pela doença, no sábado 9. O Brasil se tornou um dos piores do mundo diante da crise do novo coronavírus. Esse conjunto de fatores levará a uma fuga de capitais ainda maior. A baixa taxa Selic, de 3%, também contribui para que não seja tão interessante investir no País. “Nossa projeção é que os investimentos apresentem uma queda de 11,8% em 2020, na comparação com 2019. Mas vale frisar que essa estimativa deve ser revisada para baixo ainda. Precisamos de uma estabilidade maior para o investimento vir”, diz Marcel Balassiano, economista do Ibre/FGV. O presidente Jair Bolsonaro já mostrou que não moverá um fio para baixar a poeira e tornar o Brasil mais sólido. As perspectivas são mesmo desalentadoras.