Brasil passa de 10.600 mortes por covid-19, enquanto Bolsonaro anda de jet ski e chama pandemia de “neurose”

Atacados por bolsonaristas em mais uma marcha, Congresso e STF decretam luto de três dias em homenagem às vítimas, enquanto o presidente fura outra vez as medidas de isolamento social



Um funcionário do cemitério de Caju, no Rio de Janeiro, anda pelas covas do local neste sábado, usando roupas de proteção contra a covid-19.
Foto:CARL DE SOUZA / AFP


BREILLER PIRES

EL PAÍS - São Paulo - 09 MAIO 2020 
Um dia depois de confirmar o maior número de mortes em um dia por coronavírus desde o início da crise, o Brasil atingiu a marca de 10.627 vítimas. Assim, se tornou o sexto país com mais óbitos causados pela covid-19 no mundo, atrás dos Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Espanha e França. Segundo o Ministério da Saúde, foram notificados 730 óbitos nas últimas 24 horas, sendo que 234 mortes ocorreram nos últimos três dias. As mortes confirmadas neste sábado se aproximam do total de óbitos causados pela dengue em todo o ano de 2019 ―doença que ainda assola os brasileiros― quando morreram 782 pessoas. Das mais de 4 milhões de pessoas infectadas pelo vírus sars-cov-2 no mundo, 155.939 estão no Brasil.

Indiferente à curva ascendente da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro usou a tarde de sábado para andar de jet ski no Lago Paranoá, em Brasília. A bordo da moto aquática e sem máscara, tirou fotos com apoiadores que se aglomeraram em um deck para saudá-lo. Em vídeo gravado por tripulantes de um barco, que preparavam um churrasco e filmaram o encontro com o presidente, a autoridade máxima do país volta a menosprezar a gravidade da doença. “É uma neurose. 70% [da população] vai pegar o vírus”, disse. Porém, a curva de mortos pela covid-19 no Brasil dobrou em 10 dias: em 28 de abril, quando Bolsonaro reagiu com um “e daí?” às cifras daquele dia, eram 5.107. Último presidente a se deixar fotografar pilotando um jet ski, o senador Fernando Collor (PROS-AL) comentou de forma provocativa uma postagem que o comparava a Bolsonaro. “Se continuar assim, vai afundar.”

Bolsonaro preferiu recuar no convite que havia feito a ministros e integrantes do Governo para um churrasco no Palácio da Alvorada. Ao longo da semana, ele havia dito a apoiadores, com a presença da imprensa, que daria uma festa com o intuito de animar o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, que passa por problemas pessoais. No dia seguinte, enquanto crescia a repercussão negativa do anúncio do churrasco, disse em tom irônico para jornalistas que o evento receberia até 3.000 convidados em sua residência oficial. Porém, em seu Twitter, afirmou neste sábado pela manhã que o churrasco anunciado por ele mesmo era “fake”: atacou a imprensa e o Movimento Brasil Livre (MBL), que, depois de romper politicamente com o presidente, protocolou ação na Justiça contra o evento.

Enquanto Bolsonaro passeava de jet ski, manifestantes de ultradireita voltaram a desrespeitar as medidas de isolamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde e autoridades médicas para percorrer ruas da cidade em mais uma carreata pela retomada da economia. Os principais alvos do protesto, que terminou em frente à Esplanada dos Ministérios, foram o ex-ministro da Justiça Sergio Moro, agora visto como inimigo pelo Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Às vésperas de o Brasil ultrapassar oficialmente a marca das 10.000 mortes por covid-19, o Congresso decretou luto de três dias em ato conjunto editado pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. “Este Parlamento, que representa o povo e o equilíbrio federativo desta nação, não está indiferente a este momento de perda, de tristeza e de pesar”, informa a nota assinada por líderes das casas legislativas. O STF também declarou luto em homenagem às vítimas da pandemia. “Precisamos, mais do que nunca, unir esforços, em solidariedade e fraternidade, em prol da preservação da vida e da saúde. A saída para esta crise está na união, no diálogo e na ação coordenada, amparada na ciência, entre os Poderes, as instituições, públicas e privadas, e todas as esferas da Federação desse vasto país”, afirmou o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo.

Outra instituição que destoou do Governo neste sábado foi o Ministério Público Federal (MPF), que, por meio das Procuradorias da República de São Paulo e Rio de Janeiro, solicitou ao Ministério da Saúde um levantamento de informações sobre a taxa de ocupação dos leitos e a quantidade de respiradores pulmonares na rede privada de saúde. O órgão, que sugere a regulamentação dos pedidos de leitos privados por gestores públicos, recomenda que se torne obrigatório o registro de internações hospitalares dos casos suspeitos e confirmados de coronavírus em todos os estabelecimentos de saúde. Em nota, o MPF explica que a requisição de bens e serviços da saúde privada em uma situação de pandemia como a atual está prevista na Constituição. “Cabe ao Ministério da Saúde e secretarias locais adotarem a medida quando necessário, regulando o acesso à propriedade particular segundo as prioridades sanitárias de cada região”, aponta o comunicado.

Durante a semana, o ministro Nelson Teich afirmou ser contra a imposição de uso de leitos privados pelo Governo. Ele defende que, somente se o SUS entrar em colapso por causa das internações relacionadas ao coronavírus, o poder público deve abrir uma via de negociação com hospitais da iniciativa privada. “A gente tem que ser eficiente o bastante para fazer o SUS ser capaz de enfrentar [a pandemia]. Caso alcance o limite, tem que sentar com a saúde privada e a saúde suplementar, conversar e ver uma forma de trazer a saúde suplementar para fazer parte dessa solução como cooperação, e não como uma tomada de hospitais”, disse o ministro.