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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Moradores das favelas sonham com casa e negócio próprios em 2020, mas sem otimismo por segurança

Estudo do Data Favela mostra que moradores desses conglomerados estão otimistas de que realizarão, por conta própria, os principais sonhos pessoais e profissionais. Mas creem que os votos coletivos, como o de menos violência, não se concretizarão


Imagem da comunidade da Chatuba, no Rio de Janeiro, em julho deste ano.RICARDO MORAES (REUTERS)

Enquanto o país tenta lidar com a crise econômica, nas favelas brasileiras, onde a crise sempre existiu, é o otimismo que prevalece para o ano que começa: oito de cada dez moradores acreditam que a vida em 2020 será melhor, seja com respeito às finanças, à saúde ou às relações familiares. Mas a sorte não depende de Governos para 64% deles: ela virá, principalmente, do esforço próprio. Tornar-se um empreendedor é a principal expectativa profissional, ao lado da conquista da casa própria no âmbito pessoal. Os dados fazem parte da maior pesquisa desenvolvida até hoje no Brasil sobre favelas, onde moram 13,6 milhões de brasileiros —pouco mais de 6% da população do país. E os números mostram que se a esperança de realização dos desejos pessoais e profissionais é alta, a de conquistar um sonho coletivo para a comunidade, como mais segurança para os moradores, é baixa. Apenas 28% das pessoas têm certeza que os sonhos para a comunidade serão alcançados.

O levantamento foi realizado em dezembro deste ano em mais de 60 favelas de todos os Estados do país pelos institutos Data Favela e Locomotiva, em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA) e a Comunidade Door. Moradores das próprias comunidades foram treinados para a realização da pesquisa, contribuindo com a elaboração das perguntas, a coleta de informações por meio de 2.006 entrevistas e a interpretação dos dados. “A favela continua otimista com relação ao futuro, como já apontavam pesquisas anteriores. Isso tem a ver com o fato de que a crise é regra na favela, não exceção. O otimismo tem muito mais a ver com a confiança no seu esforço do que com uma solução mágica vinda de fora”, explica Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. Mas se, em 2013, 94% dos moradores davam nota de 8 a 10 para sua felicidade, neste ano de 2019 o percentual caiu para 74%.

No Brasil, as favelas estão concentradas principalmente nas capitais e regiões metropolitanas. A vida ali não é fácil. Somente dois a cada dez moradores desses territórios conseguem ter alguma reserva financeira, por exemplo. E 29% têm conseguido alguma renda graças aos serviços prestados por meio de aplicativos, um símbolo da precarização do trabalho. Nesse cenário, há nas favelas brasileiras cerca de 4,2 milhões de pessoas querendo empreender, mais da metade delas (58%) dentro da própria favela. É este, aliás, o maior desejo profissional dos moradores para 2020: 35% dos entrevistados sonham em ter seu próprio negócio.

“Isso não quer dizer que cresceu um pensamento liberal na favela. É algo que tem a ver com necessidade”, alerta Renato Meirelles. A lógica é outra. Celso Athayde, do Data Favela, explica que, nas comunidades mais pobres as pessoas aprendem desde cedo a se virar, seja fazendo um bico ou algum trabalho para fora. E que, num território onde as oportunidades ainda são tão reduzidas, empreender significa uma renda a mais e quase nunca uma atividade que vem sozinha. “É natural para uma mulher que é faxineira e também faz trabalho de cabeleireira em casa sonhe em ter seu próprio salão”, exemplifica.

Mas o maior sonho pessoal do morador da favela é ter a casa própria. Ao todo, 52% dos entrevistados têm certeza que conseguirão realizar seu maior sonho até 2020 e apenas 1% acredita que jamais conseguirá concretizá-los. “Crise é algo recorrente na vida das pessoas que nasceram nesses territórios. Elas não sonham muito alto. A favela é um espaço físico onde domina a resiliência, e a superação é um norte. Vivemos no Brasil uma crise moral e política, e as favelas percebem isso também. Mas nos territórios se consegue acreditar na felicidade e que o futuro vai ser melhor porque elas não têm muitas alternativas e caminhos. É uma coisa quase cultural”, diz Athayde.

Neste lugar onde os governos já falharam tantas vezes em garantir o básico, as mulheres chefiam 49% dos lares. Elas estão ainda mais otimistas que os homens para o ano que vem: 55% acreditam que realizarão seus sonhos até 2020, enquanto só 44% dos homens têm essa mesma confiança. O principal empecilho apontado pelos entrevistados para alcançar seus desejos é o dinheiro (67%), seguido da disciplina (32%), do tempo (25%) e da sorte (16%).

Mas quando o assunto é o sonho coletivo para a favela, a expectativa geral diminui. “O grande sonho da favela é a segurança. E quando a gente fala em segurança estamos falando de sair de casa sem achar que você pode morrer por uma bala perdida dentro do território”, afirma Renato Meirelles. Ao todo, 30% dos entrevistados colocaram a segurança para os moradores com o principal desejo para o território onde moram. Outros 17% sonham com mais infraestrutura e 12% com melhor acesso à saúde. No entanto, apenas 28% acreditam de fato que podem alcançar seu desejo para a comunidade.