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sábado, 2 de novembro de 2019

Xolos, os companheiros e melhores amigos no mundo dos mortos




Esta raça milenar de cachorro era um animal sagrado para os povos mexica e os maias


ALMUDENA BARRAGÁN GASPAR
01 NOV 2019 - 20:47 BRT

A tradição do Dia dos Mortos no México é uma das festas que melhor mostram o sincretismo cultural do país. Um ritual meio pré-hispânico meio católico que convida os defuntos a se sentarem à mesa dos vivos uma vez por ano.

Os antigos mexicas e outros povos nahuas acreditavam que quando seus corpos morriam as almas tinham que percorrer um longo caminho no mundo subterrâneo para chegar a Mictlan, o mundo dos mortos, que os maias chamavam de Xibalbá. Os defuntos não empreendiam essa jornada sozinhos, a alma de seu cão os guiava através do além para poderem atravessar o rio da morte. É por isso que os cães nessas culturas ancestrais eram considerados companheiros na vida e na morte e, aos olhos dos deuses, ser do mesmo nível que os humanos para os sacrifícios.

Maya, uma das habitantes do Museu Dolores Olmedo.TERESA DE MIGUEL (EL PAIS)

"O cachorro era associado à boa sorte, à felicidade e à fertilidade", diz o paleozoólogo Raúl Valadez, do Instituto de Pesquisas Antropológicas da UNAM, um dos maiores especialistas no estudo dos xoloitzcuintles na cultura mesoamericana. É uma raça antiga que apareceu na Mesoamérica há 2.000 anos, entre as primeiras que começaram a conviver com os humanos na região. "A tumba mais antiga em que encontramos um xoloitzcuintle tem 1.300 anos, na cidade de Tula, Hidalgo", diz Valadez.

"Sem pelos e enrugado", é o que significa a palavra xolotl em náhuatl, diz o especialista. Esta raça sofre uma mutação genética que curiosamente a tornou resistente à passagem do tempo. "A falta de pelo está relacionada à falta de dentes", explica Valadez. Os xolos não têm pré-molares, por isso é comum ver muitos com a língua fora do focinho.

"Este cão era considerado pelos mexicanos e os maias um animal sagrado", diz Mercedes de la Garza, pesquisadora do Centro de Estudos Maias, que explica que os cães eram sacrificados e enterrados com os donos para acompanhá-los ao outro mundo. No século XVI, frei Bernardino de Sahagún já descrevia em sua enciclopédia Historia General de las Cosas de Nueva España esta raça tão peculiar e sua relação com os seres humanos: “Criavam nesta terra uns cães sem nenhum pelo, lisinhos E se tinham alguns pelos, eram bem poucos. Também criavam outros cachorrinhos domesticados, chamados xoloitzcuintli, que não tinham pelo nenhum. E à noite eram cobertos com mantas para dormir”.

“Em certas datas específicas eram alimento ritual e um elemento de cura pelo calor que sua pele exala”, diz Eva Ayala, diretora do Museu de El Carmen. A instituição recebe até abril de 2020 uma exposição sobre o passado e o presente dessa raça, patrimônio vivo do México.

Centli, que significa 'milho' em náhuatl, é de cor castanho-avermelhada. Uma raridade entre os xolos.JONÁS CORTÉS (EL PAIS)

Nessa relação mística e ancestral, se acreditava que os xolos, criados pelo deus da escuridão e da morte, Xólotl, eram capazes de ver a alma dos defuntos. Do século XVIII até boa parte do século XX a raça esteve perto da extinção. Nos anos da colonização espanhola, todas as práticas e crenças pagãs foram punidas e condenadas ao silêncio, entre elas a visão que havia sobre os cachorros.

Diego Rivera e Frida Kahlo foram dois grandes defensores da raça mexicana.MUSEO DOLORES OLMEDO


Graças aos povos originários, o xoloitzcuintle sobreviveu no ocidente do México e na época do Nacionalismo Cultural foi dado o apoio necessário à recuperação da raça. Personagens como como Diego Rivera, Frida Kahlo, Juan O’Gorman e Dolores Olmedo tiveram xoloitzcuintles como animais de estimação além de utilizá-los como inspiração em sua obra. Atualmente o Museu Dolores Olmedo possui 13 exemplares de xolos que descendem do primeiro casal que Diego Rivera deu à mecenas, Nahual e Citlalli.

Fruto da pesquisa, da conservação e da criação, em 1970 a raça deixou de estar em perigo de extinção e atualmente é comum ver os xolos na rua como mais um cachorro. Há até um clube de futebol que leva seu nome, os Xolos de Tijuana e a Pixar se encarregou de tornar a raça conhecida com o personagem de Dante, no filme Viva - A Vida é uma Festa.

O cachorro Dante acompanha Coco ao mundo dos mortos.PIXAR



Mesmo que esses cachorrinhos sem pelo ainda sejam vítimas de alguns preconceitos, os que dividem sua vida com um desses carecas – ainda que existam os com pelo –, dizem que são animais carinhosos e territoriais. Bons guardiães da casa. “É preciso deixar sua pele muito hidratada e protegê-la do sol”, diz Praxedis de la Veja, dono de Centli, um xolo de cor castanho-avermelhada que não se separa de seu amo em nenhum momento.

“É mexicano e mestiço como eu”, diz Aldo Gutiérrez, que se declara amante da raça. Seu cachorro, Benito, apesar de ser adulto continua sendo muito ágil e brincalhão. De cor acinzentada e com poucos pelos na cabeça, lembra a Aldo o passado pré-hispânico que todos os mexicanos têm. “Ele me traz à memória quem fomos antes do que somos agora”, diz o jovem. Um pensamento semelhante ao de Mara Echeverría e seu marido, Daniel Rodríguez, que adotaram Tomás, um cachorrinho de olhos grandes e brilhantes que é puro amor e adora carinhos. “É importante que reconheçamos nossa mexicanidade nos cachorros porque estão aqui há milhares de anos, são parte dessa terra e só há duas raças mexicanas: o chihuahua e o xoloitzcuintle”, diz Mara.

À esquerda, Aldo Gutiérrez e seu xolo, Benito. À direita, Mara Echeverría e Daniel Rodríguez com Tomás.A.B.