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Brasil vendia imagem de país cordial, mas sempre foi autoritário, diz Lilia Schwarcz



    A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz.RFI



    A eleição de Jair Bolsonaro e a crise das queimadas na Amazônia consolidaram, no exterior, a sensação de que o Brasil não é mais o mesmo. Mas para a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, a realidade é que o país nunca foi uma nação cordial como se apresentava: “o Brasil sempre foi autoritário; não é uma novidade”, afirma a autora de Sobre o Autoritarismo Brasileiro, em entrevista ao RFI Convida.

    “Até muito pouco tempo, o Brasil gostava de se apresentar como um país cordial, uma democracia racial, um país pacífico, sem conflitos, dos trópicos, receptivo. Essa imagem mudou totalmente dentro e fora do país”, sublinha a historiadora, que assinala o impressionante acirramento dos ânimos no Brasil desde o início da crise, em 2013, mas especialmente depois de 2018.

    Schwarcz analisa que a eleição de Jair Bolsonaro colocou em evidência elementos que sempre existiram no Brasil. “A intolerância religiosa foi a que mais cresceu, mas a intolerância racial, de gênero, de origem – com a briga nordeste-sudeste – e a intolerância de gerações também, como provaram os insultos à primeira-dama francesa”, afirma a premiada escritora. “São imagens que não nos orgulham – ao contrário. Mas o fato é que o Brasil vem mostrando esse tipo de imagem de si.”

    Situação social é terreno fértil para populistas

    Num país que apresenta alguns dos piores índices de desigualdades sociais e de violência do mundo, no qual a corrupção destrói a máquina pública e com uma sociedade que preserva aspectos coloniais e escravagistas, alega Schwarcz, governos populistas encontram terreno fértil para prosperar.

    “São governos que têm tomado a forma de 'democraduras' ou que têm dado golpes de Estado liberais. Governos que pretensamente seguem a regra democrática, mas, na prática, tendem a pensar que democracia só se faz no momento da eleição”, nota a antropóloga, professora titular da USP e em Princetown, nos Estados Unidos.

    Nos países nos quais ascenderam ao poder, esses governos populistas de direita aplicam fórmulas semelhantes: atacam as instituições, a imprensa, as universidades. Na sua área, a acadêmica, Schwarcz observa que as consequências dessa perseguição não poderiam ser mais claras, com os cortes de bolsas de pesquisa e de verbas das instituições de ensino superior.

    “Os cortes pretendem tolher o presente para acabar com o futuro. Triste do país que exporta as suas mentes pensantes”, lamenta a escritora, em referência aos milhares de estudantes e pesquisadores que não estão mais conseguindo avançar nos estudos ou se inserir no mercado, e muitos dos quais optam por deixar o Brasil.

    Para ouvir a entrevista completa, clique na foto abaixo.