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A multiplicação do gasto público para a canonização de Irmã Dulce


Irmã Dulce em Salvador.ARQUIVO


Aos menos 39 autoridades viajarão a Roma para cerimônia, no domingo. Só em diárias, o gasto é de 186.000 reais. Custos devem aumentar exponencialmente se calculados deslocamento e hospedagens, que não foram informados pelos principais poderes





O próximo domingo será o dia de celebrar a canonização da primeira santa nascida no Brasil, a baiana Irmã Dulce. Ela será declarada pelo Papa Francisco a Santa Dulce dos Pobres, exatamente por sempre ter ajudado as pessoas com menos recursos financeiros e ter deixado um instituto que até hoje atua em favor deles. Mas parte dos espectadores da pomposa cerimônia na Cidade do Vaticano não terá problemas com dinheiro, que virá do erário. São ao menos 39 políticos, servidores públicos, autoridades e seus cônjuges que viajarão com recursos públicos. Só em diárias deverão custar 186.905 reais aos cofres da União. As diárias internacionais são pagas aos funcionários que têm autorização para deixarem o país em viagens oficiais.

A conta foi feita pelo EL PAÍS com base no Diário Oficial da União, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e por dados fornecidos pelos seguintes órgãos: vice-presidência da República, Câmara dos Deputados, Senado Federal, Supremo Tribunal Federal e Procuradoria-Geral da República. Os chefes desses últimos quatro poderes comporão a comitiva presidencial liderada pelo vice-presidente Hamilton Mourão.

O diretor da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco, criticou a viagem das autoridades. “Dinheiro público tem de ser utilizado para uma utilidade pública. Não há interesse público em ter uma comitiva de brasileiros de diversos poderes se deslocando com recursos do tesouro para uma canonização. É totalmente descabido”, afirmou.

Apesar de questionados, nenhum dos órgãos informou quanto será gasto com deslocamento e com hospedagem, o que deve elevar os custos exponencialmente. A única instituição que afirmou que as despesas com seus representantes serão pagas por eles mesmos foi a PGR. No caso da Câmara, o presidente Rodrigo Maia diz ter aberto mão de receber os valores das diárias. Os demais órgãos não detalharam como serão pagos esses gastos. Questionada por meio da assessoria de imprensa e pela LAI, a Força Aérea Brasileira também não respondeu, até a publicação dessa reportagem, quantas aeronaves disponibilizou para transportar essas autoridades nem os custos da operação Irmã Dulce. Os gastos com as diárias ficaram assim detalhados: Executivo ao menos 7.223 reais; STF, 13.143 reais; Câmara, 106.000 reais e; Senado 60.480 reais.

Em princípio, circulou-se a informação de que a comitiva liderada pelo general Mourão seria composta por 70 pessoas. Mas no Diário Oficial da União só há autorização para 21 integrarem o grupo. Interrogada desde a semana passada sobre os gastos e sobre quem seriam os membros da comitiva, a vice-presidência não se manifestou. O presidente Jair Bolsonaro não viajará para o evento.

Alguns dos participantes do grupo de Mourão são: a esposa do vice-presidente, Ana Paula Mourão, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, o ex-presidente José Sarney juntamente com dois de seus assessores, um diplomata e sua esposa, quatro funcionários da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) além dos presidentes do STF, Antonio Dias Toffoli, da Câmara, Rodrigo Maia, do Senado, Davi Alcolumbre, e do procurador-geral Augusto Aras. Nessa comitiva também estava previsto o embarque da primeira-dama do Estado de Goiás, Gracinha Caiado. Mas o marido dela, Ronaldo Caiado, foi submetido a uma cirurgia cardíaca de emergência nesta quinta-feira e ela desistiu da viagem. Por isso, houve a redução para 20 os membros do grupo de Mourão.

Da Câmara, vão 13 deputados, além do secretário de Transporte Metropolitano de São Paulo, o ex-deputado Alexandre Baldy, que pegou uma carona na comitiva de Maia. Do Senado, são 7 senadores. Do STF, apenas o ministro Toffoli. Da PGR, Augusto Aras e o subprocurador Alcides Martins. A maioria das autoridades embarcaram nesta quarta-feira e devem regressar ao país na próxima segunda-feira, dia 14. Entre as atividades que elas participarão estão reuniões no Senado italiano, uma missa em homenagem à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, a apresentação de uma ópera chamada “Ave Dulce”, a própria cerimônia de canonização e duas recepções oferecidas pelas embaixadas do Brasil em Roma e na Santa Sé.