Navigation Menu

Reportagem do Le Monde aponta despreparo do governo no massacre de Altamira


Reportagem do jornal Le Monde desta quinta-feira (1) sobre novas mortes em Altamira, PA.
Fotomontagem RFI

O jornal Le Monde que chegou às bancas nesta quinta-feira (1) voltou a falar da rebelião de Altamira (PA) que terminou com 62 mortos. O caso se tornou um dos piores da história do Brasil, ficando atrás somente do massacre do Carandiru em São Paulo, que terminou com 111 mortes em 1992.


Publicado em 01-08-2019 Modificado em 04-08-2019 
A correspondente do Le Monde no Brasil, Claire Gatinois, começou sua reportagem falando das últimas quatro mortes que aconteceram dentro do camburão da polícia. “Eles escaparam das decapitações, mas, algemados, não escaparam da morte”, escreveu a jornalista. Nesta quarta-feira (31), dois dias após o massacre ocorrido no centro de detenção de Altamira, onde 58 detentos foram assassinados durante uma guerra entre facções rivais, quatro outros foram encontrados mortos no veículo da Polícia que fazia a transferência deles para um presídio de segurança máxima.

A jornalista relatou então a reação do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ao saber da notícia. “Eles já deviam estar feridos, não é? ”, disse Bolsonaro, falando ainda que “problemas podem ocorrer”. Gatinois lembrou que logo após o início do massacre em Altamira, o presidente, adepto do bordão “bandido bom é bandido morto”, havia declarado: “perguntem às famílias das vítimas o que elas pensam”.

Le Monde também relatou com espanto o procedimento usado pela polícia, na frente da penitenciária, para que os familiares dos detentos pudessem identificar os mortos. “As cabeças decapitadas foram colocadas dentro de um grande saco plástico e colocadas no chão, do lado de fora do presidio. A maioria das pessoas começou a vomitar”, contou o jornal.

Para os especialistas interrogados pela publicação, “a morte por decapitação tem um valor simbólico, uma forma para uma facção de mostrar que ela está assumindo o poder”, explicou Aiala Couto, geógrafa e professora da universidade do Pará. “As mortes por asfixia no camburão são só a sequência desta batalha. É uma falha enorme do Estado. A polícia pensava estar transportando detentos de uma mesma gangue. As autoridades não têm o menor controle da situação”, observou Aiala.

Tragédia anunciada

Visto como uma “situação inesperada” pelas autoridades regionais, o massacre tem, no entanto, sinais de que a tragédia já era anunciada. Desde 2017, vários motins, influenciados pela superlotação carcerária e a rivalidade entre facções, levaram a muitos assassinatos nas prisões dos Estados do Rio Grande do Norte, Amazonas e Roraima. Todas estão na “rota da cocaína”. O Centro de recuperação regional de Altamira, onde ocorreu a matança desta semana, tinha 311 detentos para apenas 200 vagas. Quase a metade dos presos ainda estavam na espera de um julgamento.

Claire Gatinois lembrou da promessa de Bolsonaro de acabar com o crime organizado, apostando na autoridade do Estado e na repressão. Mas, segundo Adilson Paes de Souza, ex-coronel da Polícia Militar e mestre em direitos humanos pela Universidade de São Paulo, “a única política de Bolsonaro consiste em prender ou deixar que exterminem os bandidos”. “Os detidos são considerados cidadãos de segundo escalão, prometidos a uma morte física, em acertos de contas, ou simbólica, abandonados em prisões sem nenhuma esperança de ressocialização”, lamentou.