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Valter Hugo Mãe: “Se eu fosse impedido de voltar ao Brasil, nunca mais regressaria inteiro a Portugal”

O escritor Valter Hugo Mãe. LELA BELTRÃO

O escritor português fala sobre o papel da solidão em seu processo criativo e sobre o amor a Elza Soares: “Ela é a carne mais cara do meu mercado”



Valter Hugo Lemos, mais conhecido como Valter Hugo Mãe (1971, Saurimo, Angola) cresceu acreditando que jamais chegaria aos 18 anos de idade. Filho único de uma família pobre —nasceu depois de que o irmão Casimiro morresse com um ano e meio—, em uma cidade periférica, Hugo Mãe foi "resistindo" vida afora, em suas próprias palavras. Ao chegar à idade adulta (frustrando as próprias expectativas) e tornar-se escritor, acreditava que jamais venderia livros suficientes para pagar as contas. “Sempre quis trabalhar perto da cultura. Achei que poderia trabalhar numa livraria ou como porteiro de um teatro e isso estaria bem para mim, porque eu escreveria sempre, mas pensava que talvez seria um poeta pouco lido, como são normalmente os poetas, lutando para conseguir editar os meus livros e seguindo assim, escondido”, diz. Nada mais longe da realidade.


Hoje, com mais de 30 livros publicados, entre romances, poesia e literatura infantil, e detentor do Prêmio Saramago de Literatura, o escritor português, que também se dedica à música e às artes plásticas, ainda lembra com frequência de uma frase do compatriota Fernando Pessoa: "O mundo é de quem nasce para o conquistar e não de quem sonha conquistá-lo, ainda que tenha razão". Em passagem pelo Brasil para participar do VIII Festival Literário de Araxá, em Minas Gerais, Hugo Mãe conversou com o EL PAÍS sobre seu processo criativo, impulsado pelo medo à solidão, e pelo amor pela cultura brasileira, em especial pela diva Elza Soares.

Pergunta. Qual é o seu laço com o Brasil?

Resposta. Eu sinto que cresci já imerso nessa relação. É uma coisa que eu não poderia prever, faz parte de uma construção identitária que não teve como ser de outra forma, porque eu cresci na evidência das telenovelas, que tingem a cultura portuguesa ao tempo em que eu sou menino. E eu passo daí para a literatura, para a música. A novela traz tudo isso, já fazia muita adaptação de romance, carrega uma trilha sonora… Uma das coisas mais impactantes que me lembro, ainda muito menino, é da voz da Maria Bethânia, de Gal Costa fazendo a abertura de Gabriela, aquela letra muito peculiar. Essa inscrição começa a ser feita assim, sem que eu sequer entenda. Hoje, o que acontece é que eu vivo em um constante processo de maravilha, criando densidade, espessura, nessas primeiras contemplações. Uma das coisas mais incríveis é poder poder encontrar muitos desses criadores, conhecê-los em uma outra dimensão. E agora não tem como. Acho que mesmo que eu nunca mais pudesse viajar ao Brasil, eu nunca mais seria um português típico. Talvez eu tenha crescido, como muitos portugueses da minha geração, absolutamente encantados pelo Chico Buarque, pelo Caetano, pela Bethânia, pelo Gilberto Gil. Mas eu tive a oportunidade de transformar esse encantamento em algo mais consistente e afetivo. Então, se eu ficar impedido de voltar, eu nunca mais regresso inteiro a Portugal.  

P. E os leitores brasileiros? Que peso tiveram no seu sucesso literário?

R. Tem muito, tem muito. O Brasil é um país que me acolhe muito bem. E, internacionalmente, o peso do Brasil é muito maior que o de Portugal. Há um interesse muito maior na cultura brasileira do que na cultura portuguesa. Agora, com a Madonna morando em Lisboa, as estrelas hollywoodescas estão todas comprando casas em Lisboa, e há um charme criado em Portugal que é muito inusitado e recente. Mas o acolhimento do meu trabalho aqui acabou por favorecer-me internacionalmente, e eu fico muito grato por isso. E também tem uma coisa que é que o brasileiro, não só como leitor, mas como pessoa, genericamente, é muito mais entusiasta. É um cidadão que sai muito mais à rua, toda a sua mentalidade é muito mais para fora, e isso faz com que meu encontro com os leitores brasileiros seja uma constante festividade. Por vezes, em outros países, encontro pessoas que apreciam profundamente o que eu faço, mas raramente têm o abraço que os brasileiros têm. E raramente fazem o ruído que um brasileiro pode fazer. E isso é muito bonito.  

P. Esse apreço se traduz, diretamente, no mercado. Sempre que você lança um livro aqui, entra na lista dos mais vendidos. Te incomoda a pecha de “escritor pop”?

R. Eu acho que não escrevo nada que seja pop, acho que meus livros são bem duros e eles continuam muito com uma dimensão obscura, um lado instável da humanidade. Mas eu nunca tive preconceito em relação à visibilidade. Eu creio que, por uma certa frustração, criou-se a ideia de que um grande artista é, em si, um indivíduo arredio, escondido. Mas isso é um preconceito puro. Se você olhar bem, a maioria dos grandes artistas foram absolutamente visíveis, detectados, muitos deles profundamente populares e não precisaram sequer morrer para serem entendidos. O próprio José Saramago era um indivíduo da praça, nunca foi um cara escondido. Ganhou o Prêmio Nobel e a literatura dele não fica devendo nada para nada nem ninguém.

O vocábulo pop indica algo ligeiro. Mas eu fico de consciência tranquila, porque acho que meus livros não são ligeiros. Talvez algum preconceito possa existir sobretudo em quem não lê. Todo tipo de preconceito é, normalmente, uma forma de ignorância, por isso não chega a incomodar-me. Incomodar-me-ia se eu escrevesse algo em que não acredito e eu acredito muito no que escrevo. E acredito no público e acho que o público não é idiota. Por isso o público sabe ler Guimarães Rosa, que não é fácil, soube reconhecer Ariano Suassuna… A ideia de que a multidão é uma cambada de imbecis é uma ideia imbecil.

P. Você mencionou Saramago, e ele próprio descreveu seu trabalho, em 2007, como um “tsunami literário”. Como foi ouvir um elogio desse calibre logo após receber o prêmio que leva o nome dele?

R. Primeiro, foi uma correspondência praticamente amorosa. Foi como crescer amando alguém que, subitamente, nos ama de volta. A gente pensa assim: ‘conquistei esse amor’ e, depois, vem o pânico, um medo tremendo de pensar no que vou escrever para que esse homem goste, o que posso escrever que leve esse homem a não perder seu amor por mim. Porque a grande angústia da paixão é essa: como eu vou agora, a vida inteira, reinventar essa paixão para não perder essa pessoa que conquistei, né? Eu lembro, nesse mesmo dia da entrega do Prêmio, ele me disse: “nunca aceite todos os convites que lhe vão fazer. A partir de agora, você tem de saber muito bem a quem entrega seu tempo, seu talento, em quem confia. E, por mais por maior que seja seu sucesso, nunca perca a honestidade com seu texto. Acima de tudo, você está absolutamente sozinho com ele”. Eu tinha dito, quando me entregaram o Prêmio algumas horas antes, que minha sensação é que eu escrevo por um sentido profundo de solidão. E que, naquele dia, sendo reconhecido daquela forma, talvez pela primeira vez eu sentisse um pouco uma companhia. Ele usou esse discurso para me dizer: “você vai necessitar sempre de lutar por essa solidão com seu texto. No momento de escrever, sinta-se sempre sozinho”.

Eu não posso escrever um texto correspondendo às pessoas. Toda a gente gosta mais de um livro ou de outro, ficam pedindo sequências… Por vezes, é até tentador, porque os leitores têm boas ideias. Mas há uma urgência, há qualquer coisa na natureza de um escritor que se ela não for desatendida, faz com que queiramos uma coisa que nunca tivemos. Então, a gente não pode regressar a um livro. É a mesma coisa que você regressar ao segundo namorado quando já está com o quinto ou o sexto. Você pensa “gosto dele, não acabou mal”, mas não tem sentido. É como querer ser outra vez criança ou adolescente. A gente vive em perigo, a gente escreve sempre na beira de um certo precipício.

P. Você fala de solidão e escreve poesia, romance, literatura infantil. Em qual deles se sente menos só?

R. Tem dias… Mas o romance é onde eu integro gente, figuras, personagens, alguns que são profundamente de mentira e outros que são convites a pessoas reais, então talvez seja onde me sinto um pouco mais inteiro. Porque o romance também pode ter tudo, pode ter poesia, pode ser um pouco teatro, pode aludir a algum filme, ele encaixa tudo. Nada é estranho dentro de um romance, tudo é muito amplo, e essa mestiçagem é sempre interessante. É um lugar onde sinto muito conforto. Mas é curioso, porque a solidão é um ponto de partida e é uma condição existencial. Por mais que nos estudemos e nos auscultemos uns aos outros, há um ponto em que estamos sempre sós. Não tem como chegar ao recôndito profundamente interior de cada um. Nesse espaço, estamos absolutamente entregues a nós mesmos, e é uma experiência única e largamente intransmissível. A ambição da arte é fazer com que isso se torne transmissível. Por isso que nós falhamos tanto e por isso que a arte é tão sujeita à opinião. O artista é o cidadão mais desgraçável da sociedade, porque ele está sempre sujeito ao escrutínio. Você pode fazer uma coisa que, para muita gente, é deslumbrante, mas tem sempre 150 cidadãos que vão achar uma porcaria. Não tem como criar consensos. O que você pratica é sempre uma dimensão do fracasso. Por vezes, você fracassa menos, por vezes mais. Porque você nunca vai fazer uma coisa que seja absoluto nem para você mesmo. Senão eu estaria curado da minha doença criativa. Se isso acontecesse, deixaria de ser artista.

P. Você sente o mesmo em relação à música e às artes plásticas, às quais você também se dedica?

R. Sim, mas enquanto artista plástico e músico, eu sou o fracasso puro. Eu sou um amador profundo. Só estou fazendo. Aliás, quando ofereço um desenho a alguém, eu peço desculpas e peço para guardarem no fundo da gaveta ou exporem na garagem. Mas quando eu observo a arte dos outros, há gente que acho que chegou lá. Talvez essas pessoas ainda sintam uma angústia e por isso continuam fazendo, não é? Mas eu acho que há obras na humanidade que foram uma superação da própria humanidade, obras que conseguiram chegar a um ponto que talvez estivesse reservado para o conceito divino.

P: Por exemplo?

R. Eu nem preciso sair do Brasil. Gente como Chico [Buarque] ou Caetano [Veloso] tem momentos em que a voz, a composição, a mensagem são coisas que eles conseguiram roubar à dimensão divina. Acho que só Deus estava previsto para ser tão bom. Eu tenho uma bandeira do Brasil desenhada em casa que em vez de dizer “Ordem e Progresso” diz “Elza Soares”. Elza Soares, para mim, é a carne mais cara do meu mercado. E eu acho que ela tem instantes em que é insuperável. Você pode buscar a Billie Holiday, que era uma deusa, pode buscar Ella Fitzgerald, mas, em instantes, elas não são melhores que Elza Soares. Pode alguém algum dia chegar àquele ponto de maravilha, mas ser melhor que a Elza Soares é um absurdo.

P. Quem mais?

R. E tem muita gente, tem muita coisa assim. Por exemplo, quando eu fui a primeira vez à Florença e entrei na Galleria degli Uffizi [Galeria dos Ofícios] e vi as duas telas do Botticelli, que são vulgarizadas, nós as vemos em tudo, estampadas em camisetas e tudo… Não esperava que fosse nada superior. Mas quando me deparei com elas, meu pensamento parou. Não conseguia acreditar na beleza profunda, no detalhe, na perfeição. A relação direta do olho, do nosso corpo com aquelas telas é um acontecimento ao que toda gente deveria ter direito. É como visitar um santo que esteja vivo. É uma santidade pintada. E a relação que nós estabelecemos é profundamente espiritual e de comoção pela humanidade. Quando a gente se depara com um Botticelli, quando estamos num show da Elza, se nós não entendermos que a humanidade é uma coisa absolutamente maravilhosa, é porque nós somos umas bestas energúmenas que não estamos preparados para ser gente.

P. A literatura tem também esse poder de roubar centelhas do divino?

R. A esperança de um autor talvez seja essa. A gente pensa: será que eu posso ter uma página que maravilhe, que comova as pessoas para a maravilha humana, como uma tela do Botticelli, como Elza Soares cantando Flores Horizontais?

Valter Hugo Mãe, durante a entrevista. LELA BELTRÃO
P. Sua obra comove com as falhas mais humanas de suas personagens. Você estudou Direito e trabalhou durante um tempo como advogado. Em que medida essa prática influenciou sua literatura?

R. Os motivos porque estudei Direito são os mesmos porque escrevo livros. Eu queria muito salvar o mundo ou pelo menos salvar-me a mim. Cresci achando que eu era uma porcaria imprestável, que morreria absolutamente abandonado, sozinho, brevemente, e, durante muito tempo, achei que morreria aos 18 anos e que nunca teria autoridade para coisa nenhuma e nem seria proprietário de mais do que dois cadernos velhos. Quando a vida foi me dando oportunidades, mais do que ter a sensação de que eu estava conquistando, tinha a sensação de que estava resistindo, que estava, sobretudo, sobrevivendo. Eu fui estudar porque não podia desperdiçar essa oportunidade. Escolhi Direito porque pensei que talvez aprendesse a utilizar um instrumento que permitisse que outras pessoas não se sentissem tão periféricas quanto eu me sentia. Mas a formalidade do Direito era completamente aversa à minha emotividade. Eu chorava nos tribunais, nos julgamentos, nas audiências, comovia-me com os clientes e não conseguia cobrar um tostão de ninguém, era falido total. Então percebi que precisava trabalhar de outra forma e,  bem no fim do curso, publiquei meu primeiro livro de poemas e pensei que talvez os livros pudessem ser minhas grandes peças processuais.  Ainda hoje, uma tentação que tenho é de criar um apelo para a Justiça através dos livros.

P. Você sempre falou muito bem do Brasil, referenciando, inclusive, o filósofo Agostinho da Silva que disse que “o Brasil é a mais esplendorosa criação que Portugal já fez”.

R. É absolutamente maravilhoso atravessar um oceano inteiro e poder falar com as pessoas, encontrar uma literatura feita na mesma língua, que traz uma outra consciência, que aumenta, no fundo, nossa capacidade de pensar. E isso é uma das coisas que mais me fascina nessa possibilidade de convívio. Eu costumo dizer que um mau poeta brasileiro é bem melhor que um poeta mediano português, porque um mau poeta brasileiro traz em si um trabalho com a língua que nunca aconteceria em Portugal. 

P. Mas esse olhar maravilhado com o Brasil se mantêm ainda hoje, quando, já há alguns anos, o país atravessa uma crise sociopolítica e até de identidade?

R. Isso é uma coisa que tem assustado o mundo. Esse retrocesso, sobretudo essa polarização entre as pessoas, a ideia de que elas são suas próprias inimigas, quando não é bem assim… Isso é uma tristeza a que o mundo está a assistir, e incluo-me nela. No entanto, o país não é essa crise. A cultura brasileira não é essa crise, é uma coisa complexa que há de sempre encontrar espaços de resistência, e algumas figuras bem públicas que poderiam ter ficado acomodadas, quietas, deixando a coisa passar, têm dado a cara. A mim, o que me interessa, não é que as coisas se chamem esquerda ou direita. Interessa-me que nenhum cidadão seja excluído, que ninguém esteja diminuída. É uma questão política, moral e humana. E um rebaixamento da condição humana não é aceitável. Nós temos de progredir no sentido de maior qualificação da vida das pessoas, esse é o grande desafio na atual situação política brasileira. Mais do que uma questão econômica, eu acho que a primeira coisa a fazer é adquirir outra vez o respeito e impor, exigir um estabelecimento de paz para que o diálogo seja possível. 

P. Apesar desse panorama crítico, permanece sua vontade de mudar-se para uma cidadezinha do Brasil?  

R. Claro que sim. Sempre que venho, eu quero ficar. Tenho muita saudade do tempo que eu vinha por semanas ou um mês, e ficava largado, andando nos sebos, comprando livro, comendo coxinha na rua, uma das melhores coisas do mundo. Esse é meu primeiro Brasil, de quando cheguei, anônimo, em 1999. Comprava livros e ficava em um canto qualquer, bebendo água de coco e só observando as pessoas. Como, por exemplo, as pessoas são tão distintas das novelas. Como o brasileiro real é muito mais mestiço, muito menos italiano. Tenho o sonho de um dia ter um passaporte brasileiro e poder ficar um ano, dois anos, até ganhar sotaque.    

P. Com tanta influência da cultura brasileira, seu português é uma mistura de vocábulos e gramáticas daqui, de Portugal e de Angola. Em que língua você escreve?

R. Eu acho que talvez esteja a tentar criar um valterês ou alguma coisa assim, um português que acaba por ser um pouco mais meu do que exatamente de algum país. O eu ter nascido em Angola, ainda que tenha saído de lá com dois anos, criou uma inscrição muito grande em mim, uma espécie de agradecimento por ter nascido em outro país. Quando eu era menino, havia um incômodo com as pessoas que regressaram da África e eu fui muito incomodado, sem ter a noção das coisas, por ter nascido em Angola. Com cinco ou seis anos, tinha gente que me chamava de preto, que me discriminava racialmente para aludir o ao fato de eu ser um dos retornados. Eu comecei por não entender e, com sete ou oito anos, numa terra onde não havia um só negro, acabei por criar um sentido antirracista muito grande. E, paulatinamente e até inconscientemente, comecei a ter necessidade de absorver as coisas. Chegava pouco da cultura angolana à terra onde eu estava, mas chegava cada vez mais coisas da cultura brasileira, então, ser um pouco brasileiro era também minha forma de ser negro, de ser angolano. Era a minha forma de ser um português que não era completamente português, que não era só português. Acho que eu fiquei esta coisa misturada, com uma gratidão e um sentido brasileiro muito forte, porque foi a minha forma de completar alguma coisa que não tive como completar de outra maneira.