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Central sindical argentina classifica acordo UE-Mercosul como “industricídio”



    Sede do Mercosul em Montevidéu, no Uruguai.Flickr/CC/Carlos Borroni

    Não é apenas a França que está reticente sobre o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. 

    Na Argentina, a oposição chegou a declarar que o compromisso é uma "tragédia" ou um “industricídio”, como classificou a Central Geral dos Trabalhadores. Preocupado, o presidente Mauricio Macri receber nesta quarta-feira (3) representantes de mais de 30 câmaras empresariais para explicar os detalhes do tratado.


    As reações do governo francês sobre o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foram recebidas com cautela na Argentina, mas sem surpresas. O governo Macri entende que as declarações tinham como alvo os produtores agropecuários franceses que emperraram as negociações.

    O ministro da Produção da Argentina, Dante Sica, que participou das discussões sobre o acordo, afirma que confia na ratificação do compromisso pela França porque o texto "é muito equilibrado em termos de demandas e de concessões". Segundo ele, as incertezas do governo Macron são "um bom sinal para os argentinos", porque demonstra que a França "não ganhou tudo o que queria ou que teve de ceder mais do que pretendia".

    Já o chanceler Jorge Faurie advertiu que será "muito difícil mudar as coisas que já estão assinadas e negociadas".

    Oposição contra o acordo
    A Argentina está em plena corrida eleitoral para as eleições de outubro. O candidato que lidera as pesquisas, Alberto Fernández, na chapa de Cristina Kirchner, candidata a vice, disse que, com o compromisso, o setor automotivo será um dos mais castigados. Segundo ele, se a Argentina perde, não há razões para se assinar um acordo com a Europa. Fernández também avisou que, se for eleito pode rever outras decisões de Macri. 

    A Central Geral dos Trabalhadores, que apoia Fernández e critica Macri, classificou o acordo como um "industricídio", ou seja, o homicídio da indústria argentina, especialmente no setor de auto-peças. 

    Macri, que concorre à reeleição, já começou a usar o compromisso em sua campanha. Nas últimas horas, ao visitar as obras de uma auto-estrada, ele declarou que "o acordo abre um enorme futuro para a Argentina".

    A estratégia de Macri é apontar para um horizonte de crescimento a partir de uma reinserção da Argentina no cenário internacional com uma economia aberta e competitiva. O presidente aponta para o futuro porque, no presente, o país está em recessão desde o ano passado.

    Empresários estão inseguros
    Os setores agropecuários apoiam o acordo comercial. Já as câmaras empresariais oscilam entre apoio e dúvidas. Para Guillermo Moretti, vice-presidente a União Industrial Argentina, o compromisso "não é uma boa notícia para a indústria argentina".

    Para seduzir os empresários, Macri receberá nesta quarta-feira mais de 30 câmaras empresariais para esclarerer os detalhes do acordo. Depois do encontro, os ministros que participaram das negociações farão um trabalho junto aos setores mais sensíveis à concorrência europeia.

    O objetivo do governo é conter esses setores para evitar que empresários e sindicatos juntos disseminem dúvidas sobre o acordo. Como na França, as organizações sindicais são muito fortes na Argentina. 

    Pântano político

    Se Macri ganhar as eleições de outubro, o acordo terá grandes chances de ser aprovado. Se ele perder, tudo ficará num pântano político. 

    As pesquisas de intenção de voto indicam um empate técnico entre Macri e Fernández, contrário ao livre comércio. A oposição tem uma vantagem de três ou quatro pontos, mas o número de indecisos é alto. Conquistando essa fatia do eleitorado é que o governo acredita poder reverter esse quadro. 

    A aprovação do acordo entre o Mercosul União Europeia no Congresso argentino provavelmente será tarefa dos novos legisladores eleitos em outubro. Durante o período eleitoral, é difícil que haja quorum para uma votação.

    O governo brasileiro teme que a disputa política argentina emperre o compromisso. Por isso, quer aprovar uma cláusula que permita aos membros do Mercosul entrarem individualmente no acordo à medida que cada Parlamento aprovar o texto, sem esperar que todos os países o ratifiquem, como funciona atualmente. A questão, aliás, será discutida durante a próxima reunião de Cúpula do Mercosul na Argentina, daqui a duas semanas.