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O murro na mesa e a falta de fogo no rabo do general



No país surreal do capitão reformado Jair Bolsonaro, general dá murro na mesa e esbraveja que Lula deveria pegar “prisão perpétua”, na frente de um bando de jornalistas passivos e mansos – eu me lembro do tempo em que o Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto era formado por profissionais combativos e não por gente que presenteia o presidente com uma bíblia de crente (ah, Delis Ortiz, que pernóstico e rastaquera) -, mas não porque seu comandante-em-chefe está desmoralizando as Forças Armadas. E está. Demitiu, em sequência, três generais ocupando postos públicos – o mais relevante deles o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, da Secretaria de Governo, substituído pelo general Luiz Eduardo Ramos, mas também o presidente dos Correios, general Juarez Cunha, e o presidente da Funai, Franklimberg de Freitas. Todos foram demitidos de forma desrespeitosa, vexaminosa, no mínimo imprópria. Mas o general Augusto Heleno, ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), que parece mais raivoso que esclerosado – por hora -, deu seu piti, no café da manhã de Bolsonaro com jornalistas na desta sexta-feira, 14, na frente de seu chefe e das vaquinhas de presépio que cobrem o Planalto, porque Lula, numa entrevista, chamou a facada em Bolsonaro de “estranha” e “suspeita” (Assista). E é estranha e suspeita mesmo.

Heleno foi mais longe, perdendo completamente a linha. Exaltado (olha o coração, general, não é só faca que mata, ódio represado também explode artérias) , chamou o ex-presidente Lula de “canalha” e disse que “tinha vergonha” de ele ter sido presidente do Brasil – que ingratidão, velhaco, ele te mandou para o Haiti e você devolveu com a Cité Soleil. Heleno foi mais longe, mas você não deve ter lido isso na mídia. “E será que o câncer dele foi mentira? E o câncer de dona Dilma foi mentira?”, vomitou o comandante da nova versão do SNI, o Serviço Nacional de Informações da ditadura. Recomendo que você assista o desabafo do general Heleno (Aqui), assistido pelos jornalistas de cabeça baixa, literalmente, com a desculpa de que anotavam em seus caderninhos. 

O fogo no rabo do general, a mula sem cabeça da folclórica Esplanada dos Ministérios do Reino de Deus, não se acendeu pelas razões corretas. Talvez devesse ter esmurrado a mesa na defesa de Santos Cruz, de Juarez Cunha e de Franklimberg de Freitas, todos generais, todos demitidos de forma desrespeitosa quando se esperava que o capitão transformado pelas urnas em chefe provisório fosse no mínimo decente com os colegas de farda que até dezembro passado eram seus superiores hierárquicos.

Juarez Cunha, por sinal, foi chamado de “sindicalista”, por defender os interesses dos Correios e se opor a sua privatização, e teve sua saída comunicada ali mesmo, na mesa do café da manhã em Plutão, o planetinha gelado para onde fomos todos jogados na virada do ano. O general Juarez Cunha assumiu a presidência dos Correios em novembro do ano passado, durante o governo do ex-presidente Michel Temer. Foi mantido no cargo após a posse de Bolsonaro. Cunha nunca escondeu que defende a manutenção dos Correios como empresa pública. Durante o feriado de Páscoa, Juarez Cunha escreveu em uma rede social que tinha “argumentos para demonstrar porque é importante para o país manter a empresa pública [os Correios], inclusive apresentando casos malsucedidos de privatização de correios pelo mundo”. Mas para Bolsonaro, não há argumentos que não sejam os seus. Franklimberg, outro idealista que caiu de para-quedas na selva errada, passou a ser alvo de pressão de ruralistas liderado pelo secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antonio Nabhan Garcia. Ao sair, o general disse que a Funai continua a ser alvo de interesses sem nenhuma relação com a causa indígena e que estes, mais uma vez, prevalecem no caminho da autarquia. A última botinada do capitão foi em um general ainda mais querido na caserna, e num cargo mais importante. Santos Cruz saiu depois de ser imolado pelas redes sociais pela chamada “ala ideológica” do governo – o astrólogo Olavo de Carvalho, seus indicados na Corte, e os três filhotes reais, Moe, Curly e Larry – sem que Bolsonaro jamais os tenha desautorizado ou repreendido. Bolsnonaro descreveu assim a saída de Santos Cruz, mesmo negando que a conversa tenha sido áspera – ou seja, foi. “Não houve elevação de voz. Foi um momento até constrangedor pelo passado da gente”, disse. “Mas ele continua no meu coração por assim dizer”, disse o presidente, na conversa com os repórteres setoristas. Por assim dizer. Compre – e publique – quem quiser essa versão.

Outros generais serão expurgados por Bolsonaro, basta lhe dar na telha. Dizem que o próximo será o chefe da Secretaria-Geral, Floriano Peixoto – que entrou na vaga de Gustavo Bebianno, o do laranjal do PSL. Militares e civis, claro, como esse fim de semana o presidente do BNDES, Joaquim Levy, que pediu para sair após ouvir uma ameaça de Bolsonaro, que exigia a cabeça do advogado Marcos Barbosa Pinto do cargo de diretor de Mercado de Capitais do banco de fomento. Simplesmente porque trabalhou para o PT, e 2005 a 2007 — na diretoria que terá como foco a venda de participações da BNDESPar, braço de participações do banco de fomento. Aliás, ambos trabalharam. Levy foi por 11 meses ministro de Dilma – entre 1º de janeiro e 18 de dezembro de 2015, primeiro ano do segundo mandato da petista -, mas Paulo Guedes o bancou. Por que até o Chicago Boynão vê em Levy exatamente um petista, mas um técnico competente. A diferença parece óbvia pra quase todo mundo, mas não para KKK bolsonarista. Agora existe o conceito de “pessoas suspeitas”, aqueles que o general do murro na mesa caça em seu GSI. “Governo tem que ser assim: quando coloca gente suspeita em cargos importantes e essa pessoa, como Levy, já vem há algum tempo não sendo leal àquilo que foi combinado e que ele conhece a meu respeito, ele (Levy) está com a cabeça a prêmio há algum tempo”, disse o presidente no sábado. Achou que tinha dado seu recadinho. Honrado, Levy pediu as contas.

Se uma epidemia de honra, aliás, varresse a Esplanada, não ficaria ninguém para contar a história. Mas a ala dos sobreviventes é sempre maior. Si hay oficina, soy gobierno.