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Ideia de moeda única no Mercosul faz barulho, mas não gera eco no mercado





Os presidente Jair Bolsonaro e Maurício Macri.  REUTERS

Em visita à Argentina, presidente Jair Bolsonaro defende que uma moeda chamada 'peso real' poderia ser o primeiro passo para moeda única do mercado comum do continente




HELOÍSA MENDONÇA
Em visita à Argentina, o presidente Jair Bolsonaro revelou a um grupo de empresários que os dois países negociam a criação de uma moeda única entre Brasil e Argentina, que, segundo a imprensa argentina, se chamaria "peso real". A notícia pegou de surpresa o Banco Central brasileiro que descartou, por meio de nota, a existência de qualquer estudo ou projeto em curso "para uma união monetária com a Argentina". O comunicado teria sido escrito para acalmar investidores preocupados com a notícia e evitar reações precipitadas.

Bolsonaro, no entanto, voltou a confirmar nesta sexta-feira, em Buenos Aires, as negociações com a Casa Rosada e ressaltou que este seria o primeiro passo para conseguir uma moeda única no Mercosul – bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – fundado em 1991, e que representa uma exportação de mais de 20 bilhões de dólares para o Brasil (dado de 2018)  . "Paulo Guedes deu o primeiro passo para um sonho de uma moeda única na região do Mercosul, o peso real. Como aconteceu com o euro lá atrás, pode acontecer o peso real aqui”, afirmou o presidente.

A proposta foi criticada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que colocou em dúvida a eficácia da medida. "Será? Vai desvalorizar o real? O dólar valendo 6 reais? Inflação voltando? Espero que não", escreveu em seu Twitter. Ao mesmo tempo, pegou mal entre alguns investidores internacionais que viram a ideia como um “repelente do dólar”, informa o analista político Thiago de Aragão. O ministro da Economia,  no entanto, atenuou as declarações a jornalistas, segundo o jornal Valor. “Por enquanto é somente especulação”, disse. “Isso é algo que poderia acontecer em um prazo de 20 anos”,e que ele mesmo vem defendendo como possibilidade desde a década de 1980.

Tanto o peso argentino - que vive tempos de grande volatilidade e se desvalorizou mais de 50% no último ano - como o real são duas moedas emergentes que sofrem normalmente com os vai-e-vens da economia internacional e também com a inflação. No país vizinho, os preços dispararam e a previsão é que a inflação chegue a 40% este ano. A ideia de adotar uma moeda comum já tinha sido aventada em outras ocasiões, mas nunca prosperou.

Segundo o jornal argentino La Nación, a proposta vem sendo discutida pelos governos do Brasil e da Argentina há pelo menos dois meses. Uma das primeiras conversas entre interlocutores brasileiros e argentinos sobre o 'peso real' ocorreu nos Estados Unidos, durante uma reunião no Fundo Monetário Internacional (FMI). Há algumas semanas, o ministro da Fazenda argentino, Nicolás Dujovne, tinha realizado também uma visita rápida ao Rio de Janeiro para conversar com Guedes.

Dujovne afirmou, nesta sexta-feira, que o projeto de uma moeda binacional "não tem prazo para ser colocada em vigência e que levará muito tempo, já que é preciso dar muitos passos". "Sem dúvida é um processo longo que requer antes que os países estejam ordenados", afirmou o ministro segundo a agência de notícias Telam. "Assim como fez a Europa com o euro, será necessário a aplicação de determinados parâmetros para que o projeto seja exitoso", disse.

O ministro argentino ressaltou que o Brasil está atualmente em um "processo muito importante" de tramitação da reforma da Previdência, enquanto a Argentina tem pela frente as eleições presidenciais de outubro - e as primárias em agosto. Dujovne ressaltou, no entanto, que ter esse projeto no horizonte é algo que ajuda a "ordenar as prioridades e das os passos necessários".

Algumas fontes locais argentinas acreditam que a criação do peso real poderia ajudar a dar estabilidade econômica e, até mesmo, ajudar a melhorar a imagem de Maurício Macri, que hoje vê sua popularidade cair (está com 30%) e sua reeleição em xeque. Com Alberto Fernández como candidato à presidência da chapa kirchnerista, e Cristina Kirchner como vice, a disputa eleitoral ficará ainda mais acirrada.

A jornalistas, Bolsonaro afirmou estar preocupado com o rumo das negociações de uma moeda única em caso de vitória do kirchnerismo. "Não fui à Argentina para fazer campanha. Mas me preocupo, sim, com um retorno da senhora Cristina Kirchner. Pedi aos argentinos que votem com a razão, e não com a emoção, e que abandonem os populismos", disse. Já de volta ao Brasil, o presidente ressaltou que a criação da moeda única traria mais ganhos do que perdas. "Como em todo casamento, você ganha mais do que perde (...) Acredito que isso nos dá uma trava em algumas aventuras socialistas que aconteceram por aqui", afirmou.