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quinta-feira, 13 de junho de 2019

É preciso resgatar da extrema direita os símbolos nacionais



Seguidores escolhem figurino com inspiração verde-amarela para acompanhar em Brasília a posse de Bolsonaro como presidente.  AFP

Em várias democracias ao redor do mundo, radicais têm se apropriado de bandeiras nacionais para poder chamar vozes discordantes de inimigos da pátria



Em um fim de semana recente, ao sair de casa para correr no Parque Ibirapuera, em São Paulo, minha mulher questionou a escolha da minha camisa – da seleção brasileira. "Vão achar que você é bolsominion", alertou e me lembrou das manifestações pró-governo previstas para o dia seguinte na Avenida Paulista.

De fato, verifica-se hoje uma tendência crescente de apropriação de símbolos nacionais por movimentos de extrema direita tanto no Brasil quanto em outros países. Isso faz parte de uma estratégia sofisticada, pois permite uma suposta divisão da população entre patriotas de um lado e inimigos da pátria de outro.

Na Finlândia, por exemplo, usar uma camisa estampada com o símbolo nacional – o leão e a cruz – era comum no passado, mas seu uso hoje está fortemente associado a grupos xenófobos. Incomodada com o controle da extrema direita sobre o símbolo, uma agência finlandesa de design chegou a pedir, poucos anos atrás, sugestões para criar símbolos alternativos, que cidadãos moderados poderiam usar sem ser confundidos com radicais da direita. "Grupos extremistas sequestraram símbolos nacionais, fizeram do nacionalismo uma palavra suja e basicamente roubaram o direito de todos nós nos orgulharmos de nosso país", explicou Karri Knuuttila, um dos principais membros da iniciativa, à época.

Nos Estados Unidos, o presidente Trump tem sistematicamente tentado se apropriar da bandeira nacional, alegando (incorretamente) que seus adversários evitavam usá-la em eventos – e que, portanto, não seriam patriotas.

Na Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) costuma assegurar que todos os seus manifestantes portem a bandeira alemã e acusa os demais partidos de sentirem vergonha dos símbolos nacionais. Um vídeo em que a premiê Angela Merkel tira uma pequena bandeira alemã do palco durante a celebração da sua vitória nas urnas em 2013 viralizou entre grupos da extrema direita e é até hoje mencionado por líderes do partido extremista como prova de que Merkel seria "anti-alemã". O movimento alemão xenófobo e nacionalista chamado Pegida, aliado ao AfD, adota o slogan "patriotismo não é crime", alegando que as elites cosmopolitas envergonham-se de qualquer símbolo nacional.

Em resposta, porém, moderados em muitos países caíram na armadilha dos radicais e cederam o uso dos símbolos nacionais aos extremistas – e, com isso, abriram mão do debate sobre patriotismo. Durante a última Copa do Mundo de futebol masculino, a ala jovem do Partido Verde alemão chegou a pedir que os torcedores não usassem a bandeira alemã durante os jogos – em grande parte uma resposta às marchas da AfD e do movimento Pegida. Quando milhares de alemães encheram as ruas de Berlim em 2018 para protestar contra a ascensão da extrema direita, a organizadora da manifestação, Theresa Hartmann, sugeriu aos participantes usarem bandeiras com o arco-íris e cartazes com os dizeres "Refugiados são bem-vindos", mas pediu que os manifestantes não usassem a bandeira alemã, pois ela teria "uma conotação de direita". Segundo ela, não se tratava de uma manifestação para demonstrar orgulho nacional. Sem querer, ela deu munição à narrativa dos radicais de que os progressistas não gostam de usar a bandeira porque não sentem orgulho do país.

O que Hartmann não entendeu é que não há contradição entre, de um lado, manifestar-se a favor da tolerância e dar as boas vindas a refugiados (pilares da Constituição alemã) e, de outro, sentir orgulho nacional. São episódios como esse que facilitam o trabalho da extrema direita, a qual busca estabelecer uma falsa dicotomia entre cidadãos "verdadeiros" e aqueles menos comprometidos com a nação. Na Finlândia, em vez de investir em símbolos alternativos com pouca chance de ampla aceitação, moderados deveriam buscar resgatar dos grupos xenófobos os símbolos nacionais.

Não se trata, é claro, de competir com os extremistas sobre quem mais abraça os símbolos da pátria, como nos EUA, onde a decisão de não usar um pin com a bandeira americana no paletó levou críticos do então candidato a presidente Barack Obama a questionarem sua lealdade à nação. Porém, em um momento em que movimentos nacionalistas surgem com força ao redor do mundo -- em parte devido a temores sobre o impacto da globalização –, os segmentos moderados da sociedade não deveriam se afastar dos símbolos da pátria nem se retirar do debate sobre o papel da identidade nacional e do patriotismo hoje. Tachar qualquer tipo de patriotismo de ufanismo retrógrado e contrastá-lo com o pensamento moderno e cosmopolita é contraproducente, pois não reconhece que a onda nacionalista veio para ficar. Com as turbulências resultantes do confronto comercial entre Washington e Pequim, o avanço tecnológico que tornará milhões de empregos supérfluos, as catástrofes ambientais e os fluxos migratórios de dimensões sem precedentes, apelar ao nacionalismo será uma tentação irresistível para muitos líderes políticos oportunistas.

Em vez de negar essa realidade e permitir que nacionalistas radicais possam definir o que é patriotismo ou identidade nacional, é preciso envolver correntes moderadas nos debates sobre o tema e ajudar a mostrar que um 'patriotismo razoável', para usar um termo do filósofo William Galston, pode ser positivo e é perfeitamente compatível com conceitos cosmopolitas, como estar a favor da cooperação internacional para lidar com desafios globais, apoiar a integração regional, combater a xenofobia, ser a favor da diversidade e reconhecer e respeitar a pluralidade de opiniões no processo político.

Ainda que um pouco apreensivo, acabei portando minha camiseta da seleção brasileira naquele sábado no Parque Ibirapuera.


Oliver Stuenkel é professor adjunto de Relações Internacionais na FGV em São Paulo, onde coordena a Escola de Ciências Sociais em São Paulo e o MBA em Relações Internacionais. Também é non-resident fellow no Global Public Policy Institute (GPPi) em Berlim e membro do Carnegie Rising Democracies Network.