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Querer colocar a Bíblia no centro da educação escolar significa devolver o Brasil às cavernas



Bolsonaro em sua visita a Washington. EFE

A ideia do novo Governo ultraconservador de Bolsonaro é colocar a Bíblia no centro do ensino, não somente como matéria religiosa, e sim para servir de base até para matérias como matemática, história e geografia

O Brasil é, depois dos Estados Unidos, o segundo maior país do continente americano. É uma das grandes democracias do mundo, com uma Constituição que sanciona a laicidade do Estado e sofre um grave atraso na educação pública. Uma educação que se revela incapaz de formar para um mundo em plena transformação, já dominado pela inteligência artificial que está nos transformando sem sabê-lo em algo ainda difícil de se imaginar.


Nessa encruzilhada cultural brasileira, onde a cada dia se torna mais urgente a procura de novos e modernos métodos pedagógicos para formar os milhões de jovens que serão o Brasil da comunicação global, o novo Governo ultraconservador de Jair Bolsonaro propõe uma solução ao ensino que devolve o país às cavernas da pré-história. A ideia é colocar a Bíblia no centro do ensino, não somente como matéria religiosa, e sim para servir de base até para matérias como matemática, história e geografia.

Confesso que precisei ler várias vezes e verificar a veracidade das afirmações de Iolene Lima, anunciada como secretária-executiva do MEC e logo depois demitida, quando propunha, como solução para renovar a qualidade do ensino, que “seja baseado na palavra de Deus”. Significa, segundo ela, que a “geografia, a história e a matemática serão vistas sob a ótica de Deus, em uma cosmovisão cristã”. E que dessa forma “toda as disciplinas do currículo escolar serão organizadas sob a visão das escrituras”, referindo-se à Bíblia.

Mesmo que Iolene não esteja mais no MEC, o simples fato de ter sido lembrada para o cargo dá o que pensar sobre o tipo de ideias que rondam o alto comando da pasta. Pessoas como Iolene ao que parece não leram a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento. Colocar os textos bíblicos nas mãos das crianças para que aprendam matemática ou o que for, é como colocar em suas mãos uma bomba atômica. Ou nos esquecemos de que a Bíblia, da qual existem mais de um milhão de estudos para tentar interpretá-la, é um dos textos mais complexos não só da literatura mundial como da religião judaico-cristã?

Essa loucura que querem fazer aqui no Brasil com a educação baseada na Bíblia me fez lembrar quando eu era jovem e estudava línguas semíticas no Instituto Bíblico de Roma, um dos maiores centros de excelência em estudos sobre as Sagradas Escrituras. Em uma matéria em que analisávamos o substrato na Bíblia da língua ugarítica (a língua mãe do hebraico) para melhor decifrar algumas das passagens mais difíceis de se traduzir do hebraico, nosso professor, P. Dahood, americano, nos disse: “Como estão vendo, a Bíblia não é para crianças”.

Ele se referia aos fatos escabrosos de teor sexual que contém, a imagem que ela apresenta de um Deus tirano, vingador, caprichoso, que mandava exterminar povos inteiros. E pedia que se fizesse sem compaixão. Um exemplo: quando Deus ordena a Saul que acabe com o povo de Amaleque, lhe ordena: “Vá, pois, e fira Amaleque e destrua tudo o que tem e não tenha piedade dele. Mate homens, mulheres e crianças, mesmo as de colo, vacas, ovelhas, camelos e burros. (1.Samuel 15:3).

Na obra de R. Dawkins, “Deus, Um Delírio”, se afirma que o Deus do Antigo Testamento, o que hoje o Ministério da Educação do Brasil propõe como monitor do ensino escolar, “é um personagem invejosos e orgulhoso de sê-lo, mesquinho, injusto, um controlador implacável, vingativo, limpador étnico, sedento de sangue”.

Se já é difícil explicar a uma criança os horrores e belezas que estão dentro do coração da Bíblia, um texto que deveria ser lido, como nos dizia meu pai, professor rural, “somente quando forem adultos”, não é difícil de entender o retrocesso cultural e pedagógico que pode significar ao ensino brasileiro, que até a matemática deva ser ensinada com a Bíblia.

Como filho de dois professores de escola, nutro raiva e ternura pelos sacrificados professores desse país, mal remunerados e nunca valorizados como mereceriam a seriedade e grandeza de sua missão. O atropelo que pretende obrigá-los a usar a Bíblia para uma educação “baseada na palavra de Deus” pode alinhar o país com as piores teocracias passadas e presentes, todas elas engendradoras de miséria cultural e espiritual.

E quero parabenizar uma professora que com senso de ironia e para liberar sua raiva diante do atropelo que pretende arrastar o Ministério da Educação, comentou que fará a conta com seus alunos, na aula de matemática, de quantas crianças “até de colo” o Deus da Bíblia mandou matar ao mesmo tempo em que pedia que o fizessem “sem misericórdia”.

É essa a escola que a sociedade, até a saudavelmente religiosa, a democrática e respeitosa das liberdades, deseja para o Brasil, ou a que pretendem impor, com as armas se puderem, os que desejam transformar as escolas nos novos centros de lavagem de cérebro?