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Rússia e China, contra a “ingerência estrangeira” na Venezuela

EUA lideram o apoio ao oposicionista que se autoproclamou presidente do país sul-americano.Enquanto China, Rússia e Turquia apoiam Maduro. A UE e a ONU pedem diálogo



MARÍA R. SAHUQUILLO
EL PAÍS
Moscou / Madri 24 JAN 2019 - 22:25 BRST


A autoproclamação de Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela provocou uma onda de reações internacionais. Os Estados Unidos, o Brasil e o Canadá se apressaram em dar um passo adiante em favor do oposicionista. Enquanto isso, a Rússia e a China, os principais aliados do regime chavista, deram seu forte apoio a Nicolás Maduro e advertiram os EUA que se oporão a uma “intervenção militar” para apoiar Guaidó. Moscou demonstrou forte apoio público a Maduro, que definiu como “parceiro estratégico”, e deixou claro que o apoiará. O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, falou em “pseudogolpe apoiado por líderes de vários países”. “Ninguém tem o direito de depor o chefe de Estado com métodos ilegais”, disse o líder da Rússia, que se colocou à frente do bloco de países — além de China, Turquia, Bolívia, Nicarágua e Irã — ao lado de Maduro. Outros, como a UE, Espanha, México e a ONU, pedem diálogo.

Guaidó, de 35 anos, apelou na quarta-feira à sua condição de presidente da Assembleia Nacional para forçar a saída do presidente Nicolás Maduro ao considerar ilegítimo o segundo mandato do líder chavista. Centenas de milhares de venezuelanos foram às ruas de Caracas na quarta-feira para protestar contra o regime. Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, 16 pessoas morreram nos protestos. Estas são as principais reações à crise venezuelana que divide o mundo:

Países que apoiam Juan Guaidó
Apenas alguns minutos depois da declaração da Guaidó em Caracas, o presidente dos EUA, Donald Trump, divulgou um comunicado no qual reconheceu o oposicionista como presidente da Venezuela. O Governo norte-americano também pediu a Maduro que deixe o poder, alertando-o de que “todas as opções” estão sobre a mesa se ele recorrer à força para reprimir os oposicionistas. O líder chavista não demorou a responder e anunciou a ruptura de relações diplomáticas com Washington.

Mas o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse na quarta-feira que como a Casa Branca não reconhece Maduro, este não tem autoridade para romper relações diplomáticas.

Em seguida alguns dos principais Governos da América Latina se pronunciaram. Onze dos 14 países que compõem o Grupo de Lima, um organismo multilateral criado em 2017 para ajudar a resolver a crise venezuelana, também reconheceram a legitimidade de Guaidó como presidente da Venezuela. Os Estados que reconheceram a legitimidade do autoproclamado “presidente interino” da Venezuela são Brasil, Canadá, Argentina, Peru, Colômbia, Chile, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá e Paraguai. No caso do Brasil, seu presidente, o ultradireitista Jair Bolsonaro, fez uma reunião no início deste mês com o norte-americano Mike Pompeo em Brasília em que falaram em restaurar a “governança democrática e os direitos humanos” na Venezuela, mostrando assim sua rejeição ao regime chavista.

Lenín Moreno, presidente do Equador, país que não pertence ao Grupo de Lima, também mostrou seu apoio à Guaidó, mas pediu a realização de eleições.

Por sua parte, Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que sempre foi muito crítico com Maduro, cumprimentou Guaidó no Twitter. A OEA já anunciou que nesta sexta-feira fará uma reunião extraordinária para tratar de crise venezuelana.

A Rússia, um dos maiores aliados de Maduro, ao qual apoiou com ajuda financeira na forma de empréstimos milionários e investimentos nos setores petrolífero e militar, fez uma enérgica defesa do regime chavista. “Consideramos que a tentativa de usurpar o poder da Venezuela contradiz os princípios do direito internacional”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, em entrevista coletiva. O Ministério das Relações Exteriores russo, chefiado por Sergey Lavrov, que está em viagem oficial à Argélia, também criticou a “ingerência estrangeira” e disse em um comunicado que pode derivar em uma catástrofe e até mesmo em “derramamento de sangue”.

“Consideramos as supostas ações de Washington como mais uma demonstração de seu total desprezo pelas regras e princípios do direito internacional e uma tentativa de desempenhar o papel assumido pelo árbitro do destino de outros povos”, disse o Ministério das Relações Exteriores russo. “Existe um desejo óbvio de aplicar na Venezuela os cenários experimentados ao longo do tempo para derrocar Governos não desejados”, acrescentou o ministério liderado por Lavrov.

Entre os anos de 2001 e 2011, a Venezuela se tornou um dos principais clientes mundiais da indústria russa de armamentos. Em dezembro, Moscou enviou dois bombardeiros TU-160 com capacidade nuclear ao país em uma demonstração de apoio. Embora o principal investidor no país sul-americano seja a China, o Governo russo aportou à Venezuela desde 2006 ao menos 17 bilhões de dólares (cerca de 64 bilhões de reais) na forma de empréstimos, linhas de crédito e investimentos.

A China mostrou seu apoio ao líder chavista e censurou a “intrusão” dos EUA nos “assuntos internos” do país sul-americano. “A China apoia os esforços do Governo da Venezuela para manter sua soberania, independência e estabilidade”, disse na quinta-feira a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying. “No dia 10 de janeiro, a China e muitos outros países e organizações internacionais enviaram representantes para a cerimônia de posse do presidente Maduro”, acrescentou Hua. Em maio, o sucessor de Hugo Chávez venceu eleições questionadas pela falta de garantias democráticas e observadores independentes.

Na mesma linha se manifestou Evo Morales. O presidente boliviano responsabiliza os EUA por “promover um golpe de Estado” na Venezuela. Por sua parte, o ministro das Relações Exteriores cubano Bruno Rodríguez tuitou: “Firme apoio e solidariedade de Cuba com o presidente constitucional Nicolás Maduro diante desta tentativa de golpe”. Cuba exerceu enorme influência sobre Hugo Chávez e Havana contou com a ajuda financeira de seu aliado, que é o país com as principais reservas de petróleo do mundo.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, telefonou ao colega venezuelano na noite de quarta-feira para manifestar seu apoio, segundo informou o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlüt Çavusoglu. “Maduro, irmão! Fique firme, estamos com você”, disse Erdogan. O país eurasiano é um importante fornecedor de alimentos e outros bens à nação sul-americana. Além disso, há investimentos turcos na indústria petrolífera da Venezuela, segundo a agência EFE.

O Executivo nicaraguense, aliado do Governo do Maduro na região, transmitiu sua “solidariedade” ao presidente com estas palavras. “Irmanados na Alba, somos todos Venezuela. América Latina caribenha, berço de grandes e luminosos seres, reivindica dignidade e grandeza frente ao império norte-americano”. Tanto o regime sandinista quanto o chavista arrastam uma crise institucional e social com mobilizações de grande parte de seus cidadãos contra os respectivos Governos que foram duramente reprimidas. E que lhes valeram a rejeição da maioria de seus vizinhos americanos.

Posição intermediária e chamados ao diálogo
Os três membros do Grupo Lima que não reconheceram o oposicionista Juan Guaidó como presidente da Venezuela foram México, Guiana e Santa Lúcia.

O porta-voz do Executivo mexicano de Andrés Manuel López Obrador disse ao EL PAÍS que “no momento não há mudança de postura” em relação à crise da Venezuela, informa Javier Lafuente. O México se ampara no princípio da não intervenção. O Executivo de López Obrador se ofereceu em mais de uma ocasião para ser mediador nas crises da Venezuela e da Nicarágua. Milhares de venezuelanos que vivem no país norte-americano saíram às ruas na quarta-feira para rejeitar a atitude ambígua de AMLO e pedir que se manifeste abertamente em favor de Guaidó. O México também divulgou um comunicado conjunto com o Uruguai, o outro país sul-americano que permanece neutro em relação a Guaidó, em que ambos pedem que os dois lados “reduzam as tensões e evitem uma escalada de violência”.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, apelou desde o Fórum de Davos para a “contenção e o diálogo”. Guterres enfatiza a necessidade de evitar qualquer onda de violência no país.

A UE também pediu uma saída dialogada e se reserva o apoio a Guaidó. A unidade do clube europeu frente a Caracas corre o risco de voar pelos ares depois do assalto ao poder do atual presidente da Assembleia Nacional. O presidente da Eurocâmara, Antonio Tajani, que na quarta-feira já havia manifestado seu apoio a Guaidó, pede que Maduro evite a violência contra os manifestantes.

Entre os estados da UE, o Reino Unido apoiou claramente o autoproclamado presidente da Venezuela. “O Reino Unido acredita que Juan Guaidó é a pessoa certa para levar a Venezuela adiante”, defendeu o ministro das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, na quinta-feira. O presidente francês, Emmanuel Macron, exaltou na quinta-feira a “coragem” dos venezuelanos que saem às ruas e “caminham por sua liberdade”. Além disso, qualificou de “ilegítima” a eleição de Nicolás Maduro no ano passado e disse que “a Europa apoia a restauração da democracia”. No entanto, Macron evitou fazer qualquer menção a Juan Guaidó, em linha com a postura cautelosa adotada por Bruxelas em relação ao presidente da Assembleia Nacional e presidente interino autoproclamado da Venezuela, informa Silvia Ayuso de Paris.

O presidente do Governo espanhol (primeiro-ministro), Pedro Sánchez, conversou por telefone de Davos com o autoproclamado novo presidente da Venezuela e transmitiu-lhe a mensagem de que eleições democráticas e transparentes são a saída “idônea e natural” para a crise naquele país. Sánchez transmitiu a Guaidó sua “empatia” pela “coragem” demonstrada pelo líder oposicionista em sua tentativa de “representar a vontade dos venezuelanos”, informa Carlos E. Cué. O ministro das Relações Exteriores espanhol, José Borrell, se mostrou extraordinariamente cauteloso na quinta-feira com relação à posição da Espanha: “Devemos lembrar que 200.000 espanhóis vivem atualmente na Venezuela”, informa Jesús Ruiz Mantilla.