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Maduro se entrincheira no poder com o apoio da cúpula militar

Vladimir Padrino não reconhece Juan Guaidó como presidente interino e alerta para o “perigo” que implica sua proclamação





EL PAÍS
MAOLIS CASTRO
Caracas 24 JAN 2019 - 19:19 BRST

Vladimir Padrino López, ministro da Defesa da Venezuela, cerrou fileiras com Nicolás Maduro nesta quinta-feira depois que o chefe da Assembleia Nacional, o oposicionista Juan Guaidó, se declarou na quarta-feira presidente interino do país sul-americano. “Aqueles que propiciam essa figura de um Governo de fato paralelo são muito perigosos. Nós, homens e mulheres de uniforme, seríamos indignos de usar nossa farda se não defendêssemos nossa Constituição e a soberania”, disse em um pronunciamento televisionado e rodeado pelo alto comando militar. “As Forças Armadas jamais aceitarão um presidente imposto”, disse Padrino.

Padrino denunciou que a oposição e os Estados Unidos tinham iniciado um plano para depor o sucessor de Hugo Chávez. “Há muito tempo se prepara um vulgar golpe de Estado (...) e ontem esse plano atingiu níveis de altíssimo perigo”. Sua mensagem chegou um dia depois de Maduro ter pedido lealdade aos oficiais no conhecido Balcón del Pueblo do Palácio de Miraflores. Estava acompanhado pela esposa, Cilia Flores; pelo seu número dois, Diosdado Cabello; pela vice-presidente Delcy Rodríguez e por outros funcionários, mas ninguém da cúpula da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB). Os altos oficiais militares só tinham manifestado separadamente e nas redes sociais seu apoio ao presidente.

Padrino advertiu que a proclamação da Guaidó é de “altamente perigosa” e apelou para o diálogo para resolver o conflito político. “É sumamente perigoso o que aconteceu em 23 de janeiro (...). Ontem vimos um evento lamentável: um senhor se autoproclamar presidente, isso é algo muito sério”, afirmou. Segundo o ministro da Defesa, a oposição violou a Constituição do país. “Estamos aqui para evitar uma guerra entre os venezuelanos. A sustentabilidade jurídica usada para juramentar um Governo de fato não tem destino feliz”, acrescentou. Um comunicado da FANB afirma ocorrer uma “reedição" do golpe de Estado contra Chávez, em abril de 2002. “O Governo norte-americano, junto a outros da região e alguns funcionários de organismos multilaterais, estão desenvolvendo o amplamente conhecido roteiro de derrubar projetos progressistas que sejam incômodos às suas ambições imperialistas”, diz o documento.

A cúpula qualificou a crise do país como uma “guerra híbrida” sem precedentes, que supostamente gera “ingovernabilidade” para justificar uma intervenção estrangeira.

A posição adotada pelo Exército nesse assunto é decisiva. Rocío San Miguel, diretora da ONG Controle Cidadão, considera que o anúncio surpreendeu os militares. “Não há controle sobre o efeito que o reconhecimento internacional de Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela pode estar causando na FANB”, disse.

Essa especialista em questões militares ressalta que os generais demoraram a expressar sua posição. “Não há sinais por enquanto de abandono a Maduro por parte da Força Armada Nacional. Entretanto, chama a atenção que os membros do alto comando e unidades com poder de fogo se pronunciassem tarde, sem estar em sintonia; e nem todos o fizeram”, escreveu no Twitter.

Sem detenções de opositores
Os cenários são diversos neste inesperado avanço da oposição em direção ao poder político. Por enquanto, a Procuradora General da República tampouco ordenou as habituais detenções de líderes opositores, embora há algumas semanas Íris Valera, ministra de Serviços Penitenciários, tenha ameaçado ter uma cela “preparada para Guaidó”.

Enquanto a cúpula mostrou seu apoio a Maduro na quarta-feira, em locais como Caicara del Orinoco (sudeste) e Mérida (oeste), membros da Guarda Nacional se negaram a enfrentar e reprimir manifestantes, que a todo momento os encaravam fazendo reflexões sobre a gravidade da situação social do país .

A cúpula militar é formada por generais leais ao chavismo. Muitos, acusados de violação de direitos humanos e de corrupção, são alvo de sanções dos Estados Unidos e outros Governos estrangeiros, por isso suas possibilidades de desertar são impensáveis. Na segunda-feira, um grupo de 27 militares em Cotiza, a oeste de Caracas, se insubordinou contra o Governo de Maduro. Nenhum pertencia à cúpula, e todos estão presos. Sua rebelião foi condenada por seus superiores, que prometeram puni-la com “todo o peso da lei”.

Com esses amotinados, já são quase cem os detidos por desafiar a Maduro. Os militares venezuelanos que se sublevaram contra o líder socialista pagaram um alto preço. Há alguns dias, um relatório da ONG Human Rights Watch denunciou que agentes de inteligência submeteram vários dos detidos a abusos físicos e psicológicos.