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Ideias retrógradas, mentira e 'inimigos' marcam os discursos de posse de Bolsonaro

Para acadêmicos, o agora presidente do Brasil ignora temas sociais, ataca quem pensa diferente dele e inaugura período de mistificação no país


Ideias reacionárias, inversões e mentiras, inimigos internos, religiosidade imposta e ausência de sensibilidade para os problemas sociais do país. Essas são as características dos dois discursos pronunciados, no dia da posse, pelo agora presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), segundo três analistas políticos ouvidos ontem (1º) pelo jornalista Glauco Faria na Rádio Brasil Atual. 

Francisco Fonseca, professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, avalia que tanto o discurso no Congresso Nacional como o outro no Parlatório não apresentaram novidades e reiteraram um conjunto de pressupostos que vêm sendo utilizados desde a campanha eleitoral.

Para Fonseca, as falas podem ser divididas em duas partes: uma voltada ao discurso conservador relativo aos costumes, e outra baseada na inversões de conceitos. "Falar 'ideologia de gênero' como algo depreciativo, num mundo em que as mulheres lutam por direitos iguais, é desconhecer a mais brutal e profunda realidade das mulheres, até em perspectiva internacional”, afirma o professor da FGV. 

Ele também considera ultrapassado o esforço do novo presidente em trazer o tema da família tradicional para o centro da vida política. “O Estado moderno separou o público do privado, e a família está no âmbito do privado, do foro íntimo das pessoas”, ponderou, em referência à ideia conservadora de que "família" só pode ser a união entre um homem e uma mulher. “É algo que nos leva para o mundo pré-moderno, quase na Idade Média.”

“É um conjunto de aspectos reacionários, antimodernos e antidemocrático que promovem injustiças, na medida em que a mulher precisa ser protegida, precisa de políticas públicas e, do ponto de vista da família, o reconhecimento de que as pessoas devem viver do jeito que querem viver. Não é um tema de chefe de Estado, o que mostra a pequenez do pensamento de Bolsonaro.” 

O segundo eixo, para Francisco Fonseca, é o que chama de “inversões” ou "mentiras" simplesmente. “Quando ele diz ‘vou respeitar a Constituição’ é uma inverdade. Ele já não a respeita nos seus quase 30 anos de mandato. Alguém que é contra os direitos humanos, que é favorável à tortura, que sempre teve descrença no processo democrático…Então ele tem uma história contrária à Constituição brasileira.” 

O professor de Ciência Política da FGV também enfatiza o que seria uma inversão de muitas das falas de Bolsonaro sobre a soberania nacional, o povo brasileiro e a classe trabalhadora. “Todas as suas políticas e entrevistas, ou falas de seus apoiadores, são contra a soberania popular e contrários aos direitos dos trabalhadores. Um governo que extingue o Ministério do Trabalho é porque não tem nenhuma consideração pelos trabalhadores. A perspectiva que se abre do governo Bolsonaro, do ponto de vista dos trabalhadores, dos democratas e dos progressistas, é a pior possível. É um discurso que reitera a tragédia que está sendo inaugurada hoje no Brasil.” 

Outro ponto destacado por Fonseca é a ideia de haver inimigos, algo recorrente nos discursos de Bolsonaro e que se repetiu na posse. “Quem não é favorável a seu grupo e suas ideias, é considerado inimigo”, afirma, lembrando que o candidato Fernando Haddad (PT) teve 45% dos votos válidos, e que cerca de 30% do eleitorado votou em branco, nulo ou se absteve.  

"Falar em nome do povo brasileiro quando na verdade ele representa uma minoria? O país continua dividido. Quem são os inimigos?”, pondera, para logo em seguida responder: "São aqueles que não são adeptos do fanatismo religioso da sua campanha, aqueles que querem justiça social, uma sociedade mais equilibrada, com distribuição de renda. Esses são os inimigos”, explica. "A síntese da fala mostra um regime de extrema-direita e esperamos agora o grande laboratório que será o Brasil. E saber se o Conselho Nacional de Justiça, se o Ministério Público, se o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, que irá julgar o caixa dois de Bolsonaro, ou seja, se as cortes superiores do Brasil farão o seu papel de fiscalizadora do cumprimento da Constituição.” 

Segundo o professor, a posse de Bolsonaro marca o início de um processo de mistificação. “Chama-se de democracia o que é autoritarismo; de povo brasileiro o que na verdade é uma plutocracia, um governo voltado para os empresários; chama-se de defesa da Constituição o que na verdade é uma leitura torpe da Constituição.” 

Ideologia
Também frequente na carreira política de Bolsonaro, o discurso contra a ideologia de esquerda foi enfatizado na posse do novo presidente. A narrativa, no entanto, se caracteriza por não perceber o próprio discurso como altamente ideológico, fato demonstrado ao segurar a bandeira do Brasil e exclamar que ela "jamais será vermelha”, como explica Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

“Não foram palavras apropriadas para um presidente da República. Foram palavras violentas e agressivas que incitam justamente aquilo que ele disse que queria desarmar, o espírito da luta ideológica.”

Fornazieri ainda aponta a contradição do novo presidente ao dizer que as relações exteriores do Brasil não serão pautadas por ideologia, enquanto ao mesmo tempo nomeia para o Itamaraty um chanceler que se guia exatamente por uma pauta ideológica, alinhada com os Estados Unidos e Israel. “Saltam aos olhos as contradições. Há que se esperar para ver o que vai acontecer, porque ele afirma uma coisa que se desdiz no próprio discurso.”

A referência no discurso à educação, ao dizer que a escola no país agora começará a formar pessoas para "o mercado de trabalho e não para a militância política”, também chamou a atenção de Aldo Fornazieri. 

“A educação tem duas funções em qualquer país do mundo, que é formar para o mercado de trabalho e formar para a cidadania, algo que envolve valores, a política e a democracia. O indivíduo não será um bom profissional se não for um bom cidadão, e não será um bom cidadão se não for um bom profissional, essa é a realidade. Então de novo ele cai em contradição e nesse discurso ideológico conservador.” 

Sobre a futura relação do governo Bolsonaro com o Congresso, considerando seu discurso contra a classe política, o professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo analisa que, a partir de agora, só a prática irá mostrar como essa relação será na prática. “Em certo sentido, esse discurso contra o ‘toma lá, dá cá’ tem ressonância com uma aspiração justa da população, mas uma coisa é o discurso, outra é a funcionalidade das instituições.”

Mistificação
No mesmo sentido, Paulo Silvino, também professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, diz que os dois discursos da posse mostraram claramente a posição ideológica de Bolsonaro, em que pese o tempo todo ele tentar reiterar a crítica ao que chama de "ideologia".  

“'Libertar o país do socialismo’… como se de fato nós fôssemos um país socialista, o que é um grande engodo, uma grande besteira. É evidente que nós temos correntes mais à esquerda, socialistas de fato, mas nunca tivemos um governo plenamente socialista. Portanto ele continua, tanto no discurso voltado ao Congresso quanto no discurso voltado à população, tocando em elementos que estiveram presentes na sua campanha e que já mostram a toada do que serão os primeiros três ou quatro meses do seu mandato.” 

Silvino reforça que os conceitos são importantes na política, assim como em outras áreas do conhecimento, ao definirem ideais. “E essas ideias, quando deslocadas de sua verdadeira definição, geram interpretações equivocadas”, aponta.

Ela ainda destaca a ausência de menção à expressão "social", às minorias e às questões de políticas raciais nos discursos de posse de Bolsonaro. Embora reconheça que temas econômicos tenham certa prevalência no momento em função da crise, diz que é preciso perceber a insensibilidade do governo aos temas sociais que são importantes na sociedade brasileira. 

“Estamos falando de como atrelar questões econômicas com questões sociais que sempre estiveram presentes como bandeiras das minorias neste país. Como falar de união se, nas entrelinhas, se criminaliza a posição política de alguém e enaltece a outra? Em que pese que eu seja cristão, defendo o Estado laico. Não adianta dizer que Deus está acima de tudo se na hora de fazer políticas não se tem um pensamento universalizante como o evangelho de Cristo”, afirma. 

Silvino igualmente critica a obsessão do presidente em apontar quem são os “inimigos” dele e do país. “O problema é que, nessa toada, se elege mais da metade da população brasileira que não votou em Bolsonaro”, pondera, ainda que reconheça o forte sentimento antipetista na sociedade brasileira.  

O professor ainda questiona qual o espaço real de quem não votou em Bolsonaro dentro da união que o agora presidente propõe. “Um espaço até para quem não tem lado nenhum e acredita num Brasil menos desigual e que não precisa ser autoritário, não precisa ser truculento ou violento para ser um bom presidente”, define.