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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Demanda mundial por papel higiênico amplia desmatamento no cerrado brasileiro

Produtores de eucalipto mudaram-se da Mata Atlântica para o cerrado, aumentando a grilagem de terras em comunidades indígenas e quilombolas e incentivando o desmatamento. A madeira produzida é comprada pela Suzano, que fabrica celulose e vende para grandes marcas internacionais




REPÓRTER BRASIL
FORQUILHA, Maranhão – Durante décadas, dezenas de famílias viveram pacificamente na pequena comunidade de Forquilha, no interior do Maranhão. Ali, no sertão brasileiro, os moradores costumavam plantar sua comida e criar seus animais. Há cerca de sete anos, porém, um empresário abastado instalou-se na região e começou a converter a vegetação nativa em plantações de eucalipto. Se tudo corresse como o planejado, ele venderia as árvores para a Suzano, multinacional produtora de celulose e papel. É a gigante da celulose que alimenta grandes marcas internacionais, como a Kleenex, famosa por seus lenços de papel.

Em 2014, porém, Forquilha tornou-se uma cidade violenta. Homens armados que patrulhavam a cidade entraram ilegalmente nas casas das pessoas, destruíram móveis e ameaçaram matar moradores. Os bandidos vieram com uma mensagem: Renato Miranda, o empresário produtor de eucalipto, sempre fora dono daquelas terras e a comunidade teria invadido ilegalmente sua propriedade. Moradores foram informados de que tinham oito dias para arrumar seus pertences e sair.

“Ninguém sabia para onde ir, todos estavam apavorados, desesperados”, lembra Antônia Luís Ramalho Lima, esposa e mãe de 54 anos que ainda mora em Forquilha.

A violência aumentou. Homens armados sequestraram pai e filho, levaram-nos para um rio próximo e ameaçaram assassiná-los – a não ser que a família abandonasse sua casa. Três idosos da comunidade morreram naquele ano; eles haviam sido ameaçados dias antes da morte. Não tendo para onde ir, moradores permaneceram em suas casas. Ainda hoje, muitos deles vivem deprimidos e com medo.  

Os cidadãos de Forquilha procuraram ajuda da polícia, mas não conseguiram. As tentativas de registrar reclamações com autoridades locais foram ignoradas. “Não pudemos ir à polícia porque ela estava do lado dele [Miranda]”, explicou Marcione Martins Ramalho, mãe de dois filhos. A polícia, comentou Ramalho, acompanhou os bandidos armados em uma de suas visitas.

Finalmente, em 2015, a comunidade recebeu o apoio de Diego Cabral, um advogado que ficou chocado ao saber que um processo na Justiça pedia a expulsão das famílias de suas casas. Cabral entrou com um recurso. Até hoje, o processo não foi julgado. A incerteza reina e moradores temem que as ameaças físicas e psicológicas recomecem.

“Sem terra não há para onde correr. A terra é vida para nós”, disse Marcione.

Assoando o nariz com eucalipto 
O terror vivido pelos cidadãos de Forquilha parece distante e desvinculado de nossas vidas diárias. Mas consumidores de lenços e de papel higiênico brasileiros, norte-americanos e europeus no final da cadeia de fornecimento de eucalipto podem estar, sem saber, alimentando conflitos de terras, grilagem, deslocamento violento de comunidades tradicionais e o desmatamento ilegal de grandes áreas de vegetação nativa no Brasil.

As plantações de eucalipto do país são incentivadas pela possibilidade de venda para a Suzano,  a quinta maior empresa  do Brasil, que em abril iniciou uma compra de US$ 12 bilhões da Fibria, outra grande produtora brasileira de celulose. Uma vez concluída, essa fusão fará da Suzano a maior empresa de papel e celulose do mundo.

A empresa hoje controla mais de 1,2 milhão de hectares no Brasil – entretanto, assim que obter a propriedade da Fibria, supervisionará uma área quase duas vezes maior.

Um dos principais compradores da celulose brasileira é a multinacional norte-americana Kimberly-Clark, fabricante de marcas famosas de papel higiênico e lenços. A Kimberly-Clark confirmou que obtém uma quantidade significativa de celulose de eucalipto no Brasil da Fibria e da Suzano, utilizada para fabricar “produtos de toalhas e lenços de papel, como Scott, Cottonelle, Kleenex e Andrex”.

De acordo com defensores dos direitos humanos e ONGs, os produtores de eucalipto têm explorado regularmente as deficiências nas regulamentações sobre os direitos de terra, enquanto os conflitos têm sido agravados por incentivos e subsídios do governo para a produção de eucalipto.

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