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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Clarice Lispector, a escritora inqualificável no estilo e na forma

Dona de uma personalidade enigmática e de uma linguagem poética e inovadora, autora foi reconhecida como uma das mais importantes literatas do século XX e forjou para si uma lenda que segue atual



POR EL PAÍS
“Não escrevo para agradar ninguém”, repetiu Clarice Lispector inúmeras vezes, sempre que alguém se queixava de não entender o que ela queria dizer em suas obras. Jamais se importou com o que pensariam, especialmente depois que um jornal de Pernambuco rejeitou os contos que, ainda menina, enviava à seção de ficção infantil da publicação. Porque, enquanto as outras crianças enviavam textos narrativos, os seus continham apenas “sensações”.

Sempre teve certeza de que se dedicaria a escrever, e de fato atuou não só como escritora, mas também como jornalista, escrevendo artigos de opinião, de cozinha e de moda. Lispector desejava ser considerada uma mulher normal, e aparentemente era, como mãe de dois filhos, esposa e cidadã de classe média. Entretanto, destacava-se em tudo, porque não era normal em nada do que fazia, e sim uma artista genial, impossível de enquadrar, reconhecida em seus círculos íntimos e nos ambientes literários do Brasil, mas quase nada no exterior, apesar de ter viajado muito durante seu pouco mais de meio século de vida.

Clarice Lispector é considerada, junto com Guimarães Rosa, a grande escritora brasileira da segunda metade do século XX, graças ao seu estilo, entre a poesia e a prosa. Uma marca que enchia os detalhes cotidianos de espiritualidade e que se caracterizava por utilizar a primeira pessoa na narrativa. Não se parecia com ninguém, e sua visão não recorda nenhum movimento, embora pertença à terceira fase do modernismo brasileiro, da chamada Geração de 45.

Chaya Pinkhasovna Lispector foi o nome que recebeu ao nascer, em 10 de dezembro de 1920, na localidade ucraniana de Chetchelnik. De origem judaica, foi a terceira filha de Pinkhas e Mania. Seu nascimento motivou uma pausa no caminho de fuga da família numa época de fome, caos e perseguição racial. Seu avô foi assassinado, sua mãe foi estuprada, e seu pai foi exilado, sem dinheiro, para o outro lado do mundo.

No ano seguinte ao nascimento de Clarice, toda a família fugiu dos pogroms antissemitas, primeiro para a Moldávia e Romênia, e mais tarde, em 1922, para Maceió, onde alguns parentes já estavam. Ao chegar ao Brasil, todos adotaram nomes portugueses: Pinkhas se tornou Pedro, Mania virou Marieta, e Chaya recebeu seu novo nome de Clarice.

A mãe dela, que tinha sido estuprada durante a Primeira Guerra Mundial e contraíra sífilis, morreu 10 anos depois. Havia no Leste Europeu a crença popular de que uma gravidez poderia curar uma mulher afetada por essa doença venérea, mas não foi o caso. Clarice nasceu desse afã de salvá-la, e desde muito pequena soube da sua origem, daí o sentimento de culpa ter marcado também sua vida e sua criatividade como escritora.

No Brasil, seu pai, um homem inteligente e liberal, sobrevivia vendendo roupas e mal conseguia sustentar a família. Mas ele estava decidido a mostrar ao mundo quem eram suas filhas. Quando Clarice tinha cinco anos, a família se mudou para o Recife, e aos 10 foi para o Rio. Graças a esse empenho do chefe da família, Clarice continuou sua educação até muito além do que era habitual mesmo para as meninas economicamente mais favorecidas, entrando num dos redutos da elite, a Faculdade de Direito da Universidade do Brasil. Ali, na escola de leis, não havia judeus, e só três mulheres.

Mas seus estudos de Direito deixaram poucas marcas na futura escritora, porque seu sonho ela perseguia nas redações dos jornais da então capital brasileira, onde sua beleza e seu brilhantismo já deslumbravam, com seus traços asiáticos, as maçãs do rosto salientes e os olhos um pouco rasgados. Era, além disso, uma jovem culta, que conhecia e lia com assiduidade os autores nacionais e estrangeiros de maior relevância, como Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Eça de Queiroz, Jorge Amado e Fiodor Dostoievski.


Em 25 de maio de 1940 publicou sua primeira história conhecida, O Triunfo. Três meses depois, seu pai morreu, com apenas 55 anos, de modo que antes dos 20 anos Clarice já era órfã. Aos 21 anos publicou Perto do Coração Selvagem, obra que escrevera aos 19 e que lhe valeu o prêmio Graça Aranha de melhor romance.

Em 1943, Clarice Lispector se casou com um homem católico, algo raro naquele momento no Brasil. Tratava-se do diplomata Maury Gurgel Valente, que ela conheceu enquanto estudava Direito. No final daquele ano, o casal começou a viajar, por isso em pouco tempo ela não só tinha deixado a sua família, a sua comunidade étnica e seu país, mas também sua profissão, o jornalismo, no qual tinha uma reputação em alta.

Durante 15 anos, até que se separaram, em 1959, Clarice levou uma vida tediosa de esposa perfeita, mas sempre saudosa do Brasil. Sua primeira viagem foi a Nápoles em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, como voluntária em hospitais para ajudar pracinhas brasileiros feridos. Em 1946 publicou seu segundo romance, O Lustre, e nos cinco anos seguintes a escritora viajou inumeráveis vezes da Inglaterra a Paris, até que, finalmente, a família se instalou em Berna, onde nasceu seu filho, Pedro.

Clarice nunca encontrou seu lugar fora do Brasil e era propensa à depressão, mas na verdade foi graças a seu marido que conseguiu escrever, já que sua origem imigrante a tornou menos permeável às ideias da sociedade brasileira, e seu casamento foi um passo à frente em termos econômicos, porque nunca foi rica, mas tampouco teve que trabalhar em nada além de escrever. Era esposa e mãe, mas tinha ajuda em tempo integral para se dedicar a escrever, e podia fazê-lo num cômodo só para si.

Os temas tradicionais e cotidianos que tinham a ver com as mulheres, a maternidade, o cuidado com casa e os filhos – tudo isso já havia sido escrito antes, mas ninguém escrevera como ela. Talvez essa necessidade de ir além tenha significado para Clarice um novo idioma, com uma gramática estranha, que talvez possa ser atribuída à influência do misticismo judaico que seu pai lhe ensinou. Mas outra parte de sua estranheza no estilo e na forma podem decorrer da sua necessidade de inventar e transmitir sensações além dos fatos. Quem lê suas histórias do começo ao fim se vê afetado por uma busca linguística incessante e uma instabilidade gramatical que impedem uma leitura muito veloz e que às até dificulta uma compreensão imediata.

Em 1949 Clarice Lispector publica A Cidade Sitiada. Começa a escrever contos, e em 1952 publica Alguns Contos. Viaja com seu marido aos Estados Unidos, onde nasce seu segundo filho, Paulo, em 1953. Um ano depois, em 1954, saiu a primeira tradução de um livro dela, Perto do Coração Selvagem, em francês, com capa de Henri Matisse.

Em 1959, separou-se do marido diplomata e retornou ao Rio de Janeiro, onde retomou a atividade jornalística para conseguir o dinheiro necessário para viver de maneira independente. Um ano depois publicou Laços de Família, um livro de contos aplaudido pela crítica, e um ano mais tarde o romance A Maçã no Escuro, depois levado ao teatro. Em 1963 publicou aquela que é considerada sua maior obra, A Paixão Segundo G.H., escrita em poucos meses.

A Paixão Segundo G.H. relata a vivência de uma mulher que um dia encontra uma barata no armário do quarto da empregada. A protagonista não pode evitar ficar paralisada pela contemplação desse inseto, que está preso na porta e que, apesar da repulsa que lhe causa, ela continua olhando obsessivamente, até fazer dessa experiência o estopim de uma renovação vital.

No final da década de 60, Clarice publicou no Jornal do Brasil alguns artigos mais pessoais nos quais se retratava de maneira íntima e que fizeram dela um nome popular, a tal ponto que seu cão Ulisses, que aparecia nesses relatos, se tornou uma lenda na cidade, como um dos poucos elos com a realidade brasileira, já que ela praticamente não falava de temas locais ou nacionais.

Mas a escritora continuou sendo um enigma inexpugnável, que respondia com monossílabos à imprensa ou não se apresentava nas entrevistas, o que também aumentou sua lenda de artista e quase de mito. Como se sua ansiedade e tendência à depressão fossem pouco, um fato intensificou essa parte de sua personalidade. Em 1966, a escritora dormiu com um cigarro aceso, e seu quarto ficou destruído. Ela sofreu queimaduras em grande parte de seu corpo e passou vários meses internada. Sua mão direita, muito afetada, quase teve que ser amputada e jamais recuperou a mobilidade anterior. O acidente afetou seu estado de ânimo, e as cicatrizes e marcas no corpo lhe causaram contínuas depressões.

Entretanto, Clarice já tinha um reconhecimento global por sua trajetória, razão pela qual entre o final dos anos 60 e começo dos 70 ela se dedicou a publicar livros infantis e algumas traduções de obras estrangeiras, que reuniu com palestras e conferências em várias universidades do Brasil. Seu último livro, A Hora da Estrela, é um volume que escreveu no verso de cheques e em maços de cigarro. Tem menos de 100 páginas e fala de uma moça que, assim como ela anos antes, migra do Nordeste para o Rio.

Clarice Lispector morreu na capital fluminense em 9 de dezembro de 1977, na véspera de completar 57 anos, vítima de um câncer. Sua despedida no hospital, a uma enfermeira, foi: “Morre meu personagem!”, talvez a melhor definição de sua literatura. Foi enterrada dois dias depois no cemitério do Caju, pelo rito judaico ortodoxo, envolta em linho branco. Sua lápide, simples, leva seu nome hebraico: Chaya Bat Pinkhas, que significa “Chaya, filha de Pinkhas”.

Seu estranho nome estrangeiro, que sempre tinha sido um tema de especulação constante durante sua vida, virou lenda após sua morte. Os críticos haviam sugerido que até poderia ser um pseudônimo, enquanto outros se perguntaram em mais de uma ocasião se era um homem. No fundo, tudo reflete a inquietação de que ela era algo diferente do que parecia e do que era conhecido até então.

Nas 85 histórias que escreveu, Clarice Lispector sempre evocou, em primeiro lugar, a própria escritora, ela mesma. Desde sua primeira história, publicada aos 19 anos, até a última, encontrada depois de sua morte, há uma vida de experimentação através de diferentes estilos e experiências que nem todos entendem: até mesmo alguns brasileiros cultos se viram desconcertados pelo ardor que inspira, sem serem capazes de compreender o que escreve.

Mas a arte de Clarice Lispector convida sempre a querer conhecer a mulher, e através de suas histórias se pode rastrear sua vida artística, da promessa da adolescência e da maturidade assegurada, até chegar à proximidade inexorável da morte.