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Paris é tomada por protestos dos ‘coletes amarelos’, sob os gritos “Macron, demissão”


Manifestantes incendiaram um prédio. Polícia informou que mais de 400 pessoas foram detidas e mais de 130 ficaram feridas


Os coletes amarelos desafiaram novamente neste sábado o Governo francês. Pelo terceiro fim de semana consecutivo, o movimento que nasceu para reivindicar a redução do preço dos combustíveis se manifestou em Paris e outras cidades da França. Uma concentração no Arco do Triunfo, ao norte da avenida dos Champs Élysées da capital francesa, logo descambou para confrontos violentos com a polícia. Um edifício desta zona chegou a ser incendiado pelos manifestantes. A polícia informou que mais de 400 pessoas foram detidas. Há 133 pessoas feridas, entre elas 23 agentes de segurança. 

O presidente francês, Emmanuel Macron, que se encontra na Argentina participando do G20, continua sem encontrar a fórmula para desativar uma revolta com um grito comum: “Macron, demissão” (Macron, démission, em francês).
Paris viu novamente as cenas de tensão que marcaram o protesto de 24 de novembro. A diferença, desta vez, era que as forças da ordem controlavam todos os acessos aos Champs Élysées. As lojas, exceto os restaurantes de comida rápida, cobriram as vitrines para protegê-las da destruição.

Muitos coletes amarelos —a emblemática prenda fluorescente que os motoristas precisam ter em seus veículos— preferiram não entrar na avenida, que uma semana atrás se converteu num campo de barricadas e chamas. Havia apenas algumas centenas no local.

Toda a tensão se transferiu para o Arco do Triunfo, o monumento no extremo norte dos Champs Élysées onde arde a chama ao soldado desconhecido. Grupos de manifestantes lançaram objetos em direção à polícia, que respondeu com gases lacrimogênios. Houve monumentos pixados e carros incendiados. Os manifestantes —quase todos com coletes amarelos — se dispersaram pelas avenidas e ruas vicinais.

Outros seguiram por ruas paralelas para o bairro da Ópera e a rua Rivoli, no outro extremo da Champs-Élysées. Ao mesmo tempo, era realizada uma manifestação sindical na praça da República, a cinco quilômetros do local do protesto “amarelo”.

Por volta do meio-dia, o ministro do Interior, Christophe Castaner, contabilizou 36.500 manifestantes em toda a França, incluindo 5.500 em Paris. Se fosse confirmado até o fim do dia, seria um total muito modesto, inferior ao do sábado passado. O que inquieta o Governo francês não é tanto a dimensão dos protestos − desde que começaram, há duas semanas, em nenhum momento foram manifestações de massa, e sua adesão foi caindo −, mas sim sua popularidade entre o restante da população. Cerca de 75% dos franceses simpatizam com os coletes amarelos.

A mensagem de Macron, até agora, foi dupla. Por um lado, diz entender o mal-estar dos coletes amarelos com a queda do poder aquisitivo e as desigualdades sociais e territoriais. Do outro, reitera suas reformas e se nega a ceder, tanto em relação à exigência original do movimento − a revogação do aumento do imposto sobre o diesel, que deve entrar em vigor em janeiro − como ao leque de reivindicações variadas e em grande parte fora da realidade, que vão da redução de todos os impostos até a demissão do presidente.

O Governo cruza os dedos para que o movimento perca força ou os integrantes violentos acabem por desacreditá-lo. Os grafites ofensivos contra Macron no próprio Arco do Triunfo, e o caos ao redor desse templo republicano, podem prejudicar a imagem do movimento.

“A vontade declarada e assumida de atacar as nossas forças da ordem e os símbolos de nossos países são um insulto à República”, disse Castaner. Alguns coletes amarelos e políticos que simpatizam com eles denunciam os elementos violentos como grupos externos e culpam o Governo por focar neles para demonizar todos os demais. Ao ser um movimento tão heterogêneo e sem a organização de um sindicato ou partido – para ser colete amarelo, basta colocar um –, qualquer grupo violento pode reivindicá-lo.

Políticos de todas as correntes – exceto o partido de Macron – tentaram se aproximar dos ativistas. Entre eles Marine Le Pen, presidenta do Reagrupamento Nacional (partido herdeiro da extrema-direita da Frente Nacional) e Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, o partido da esquerda populista. O antecessor de Macron na Presidência, o socialista François Hollande, também conversou com os manifestantes e expressou sua simpatia.

O Governo francês também gostaria de falar com eles, mas está sendo difícil. Na sexta-feira, o primeiro-ministro Édouard Philippe convidou uma delegação ao palácio de Matignon, sede governamental. Só dois representantes compareceram. E um deles foi embora antes da reunião porque exigia que a conversa fosse transmitida ao vivo nas redes sociais. Philippe recusou.