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O Brasil de Marta

O país cara-de-pau festeja a glória do prêmio da Fifa, mas joga socialmente contra o futebol das meninas




No Brasil de Marta, o primeiro jogo pesado foi contra a mortalidade infantil -na sua Dois Riachos (AL), morriam pelo menos 130 crianças a cada mil nascidas em meados dos anos 1980.


No Brasil de Marta, a ordem é congelar gastos públicos com saúde e educação por duas décadas, mesmo em um cenário em que a miséria voltou a ceifar vidas ainda no berço.

Os caixões azuis dos “anjinhos”, cena comum no passado, retornaram à paisagem da nação semi-árida, nos intervalos da rotina das “mortes matadas” da barbárie de jovens e adultos.

No Brasil de Marta há um candidato que lidera as pesquisas eleitorais mesmo tratando as mulheres como o pior das criaturas: “dei uma fraquejada”, disse sobre ter uma filha; sem essa de salários iguais, salivou a besta; ameaçou uma ex de morte, conforme revelou a Folha de S. Paulo; além de ter como ídolo o coronel Brilhante Ustra, conhecido, entre outras infâmias universais, por torturar mulheres grávidas na ditadura brasileira.

No Brasil de Marta, menina jogar futebol, seja no sertão nordestino ou na capital paulista, continua sendo algo malvisto, embora tenha melhorado um pouco esse olhar em muitas escolas e famílias.

Fala sério, o futiba das mulheres só é lembrado em raríssimos momentos. A CBF, que se derrete de mimos aos mimados neymares, tenta apenas pegar carona nas glórias da Marta, para esquecer no dia seguinte qualquer possibilidade de competições com apoio, tv e grana.

A virada feminina e feminista não será televisionada, certamente... Os clubes, vixe, nem se fala, raríssimos apostam no feminino, muitas vezes fazem apenas cenas isoladas de puro marketing, para fingir de modernos. Marmota.

Mais raros ainda são os times que assinam as carteiras das jogadoras como profissionais. Lembro aqui, sem maiores viagens submarinas ao Google ou às fontes, de um trio de bons exemplos, como Santos, Ferroviária e Iranduba-AM. Se tem mais, por favor, me escrevam que farei justiça nas próximas colunas.

A macharada das mesas redondas, na qual me incluo, faz as louvações no calor do prêmio da Fifa -afinal de contas os meninos brasileiros nem constam mais das listas prévias- e só volta a falar do futebol das minas no ano seguinte. Que tragédia, que bomba atômica de testosterona, que desperdício para a humanidade.

No país da melhor jogadora de futebol do mundo não se cria condições para as novas Martas. Tem que ser na marra, na superação de todos os jogos pesados, como a alagoana venceu a mortalidade infantil e outras tantas guerras públicas e particulares.

Xico Sá é escritor e jornalista, autor de “Os machões dançaram -crônicas de amor & sexo em tempo de homens vacilões” (editora Record), entre outros livros. Na tv, é apresentador, no Canal Brasil, do programa da Mostra CineFoot.