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Papa apela a católicos que ajudem a combater abusos




Em carta inédita endereçada a 1,2 bilhão de católicos, Francisco admite que Igreja negligenciou e abandonou vítimas, e defende mudança de cultura para evitar que crimes e acobertamento se repitam.

O papa Francisco divulgou uma carta sem precedentes nesta segunda-feira (20/08) em que condena firmemente casos de abuso sexual cometidos por padres da Igreja Católica e promete mudanças. Ele pede a todos os católicos que ajudem a combater a cultura do abuso.

A carta é endereçada ao "povo de Deus”, termo usado como referência a todos os membros e fiéis da Igreja. Segundo o Vaticano, é a primeira vez que um papa escreve sobre abuso sexual para os cerca de 1,2 bilhão de católicos no mundo. Outras cartas a respeito do tema haviam sido endereçadas apenas a bispos ou fiéis de países específicos.

"É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis”, diz o texto.

A publicação do documento ocorre antes de uma peregrinação do papa à Irlanda, país que costumava ser fortemente católico, mas onde a credibilidade da Igreja tem sido abalada por anos de denúncias de que padres estupraram e molestaram crianças, tendo sido acobertados por seus superiores.

Já se esperava que o tema tivesse destaque na viagem do papa, mas a questão ganhou novas proporções com a revelação de que um dos cardeais de confiança de Francisco, Theodore McCarrick, arcebispo de Washington agora aposentado, teria abusado de menores e seminaristas adultos.

Além disso, a carta vem na esteira da publicação de um relatório nos Estados Unidos apontando que mais de mil crianças foram vítimas de abusos sexuais cometidos por cerca de 300 padres no estado da Pensilvânia desde a década de 1940.

"Constamos que as feridas nunca desaparecem e nos obrigam a condenar veementemente essas atrocidades, bem como unir esforços para erradicar essa cultura da morte”, diz o texto, fazendo referência ao relatório sobre os casos na Pensilvânia.

O papa reconheceu que a Igreja não agiu oportunamente para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano às vítimas, cuja dor teria sido ignorada, emudecida ou silenciada. "Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos.”

Publicada em sete línguas, a carta afirma que nada seria suficiente para pedir perdão às vítimas e reparar o dano causado. Porém, diz que a Igreja se compromete a garantir a proteção de menores e de adultos em situações de vulnerabilidade.

"Olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas”, afirma Francisco, pedindo o envolvimento de todos os membros da Igreja.

Embora medidas tenham sido implementadas em diversos países para alertar autoridades sobre casos de abuso, grupos de vítimas afirmaram que o papa ainda precisa fazer mais para responsabilizar bispos que acobertaram padres, principalmente ao trocá-los de paróquia. Mas o pontífice não fez nenhuma menção a medidas concretas nesse sentido.

Em sua primeira resposta direta ao relatório sobre os casos na Pensilvânia, Francisco disse que, apesar de a maioria dos casos listados "pertencer ao passado”, está claro que os abusos foram ignorados ou silenciados.

O papa havia sido acusado de falta de sensibilidade em janeiro por ter insistido, durante uma visita ao Chile, que vítimas de abusos não possuíam provas contra um bispo que teria falhado em denunciar abusos. Depois de uma controvérsia, Francisco pediu desculpas e enviou representantes ao país, que acabaram apoiando as vítimas.

Em maio, todos os 34 bispos do país ofereceram sua renúncia ao papa. Cinco foram aceitas por Francisco.

PJ/ap/dpa/afp/rtr