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‘A uruguaia’ que seduz todo o mundo

O argentino Pedro Mairal ganhou o público e a crítica com um romance que se tornou um fenômeno editorial das letras em espanhol





Tem sexo, dinheiro, infidelidade, humor, crise existencial, mesquinharia, amargura, traição e até futebol. São os fios com os quais foi tecido um romance tão curto quanto intenso, tão apreciado pelo público quanto pela crítica, um livro que não parou de ganhar espaço desde que foi publicado no ano passado na Argentina. Na Espanha, La uruguaia, do portenho Pedro Mairal, já tem cinco edições e está à espera de ser vertida para vários idiomas e de sua adaptação cinematográfica. Já chegou ao português: A uruguaia acaba de sair pela Todavia Livros. É isso que chamam no teatro da Broadway e no cinema de Hollywood de sleeper, um sucesso adormecido que brota de forma inesperada graças sobretudo ao boca a boca, apesar de o autor, de 47 anos, não ser estreante nem clandestino.

“Há livros que viajam. E este é um livro viajante. Um pouco como Una noche con Sabrina Love [sem tradução no Brasil, primeiro romance do autor, cuja protagonista foi interpretada no cinema por Cecilia Roth]. Mas também meu romance Salvatierra foi traduzido para o ioruba na África... Pode ser que A uruguaia tenha aquela morbidez que faz as pessoas quererem saber o que vai acontecer com esse cara casado, quarentão, que vai a Montevidéu buscar um dinheiro e sobretudo uma garota muito mais nova”, explica Mairal em Madri, depois de receber na segunda-feira, dia 16 de julho, em Oviedo, o prêmio Tigre Juan, organizado pela Prefeitura local e a associação Tribuna Ciudadana, por este romance de 140 páginas, escrito em primeira pessoa, em tom confessional para a esposa do protagonista.

“Venho do ambiente da poesia e o círculo de leitores é pequeno. Que este romance tenha cruzado o Atlântico e seja lido com tanto interesse não cansa de me surpreender. A pessoa escreve na solidão e na obscuridade sem saber bem o que está fazendo... Depois você joga uma pedra na água e é surpreendente que os círculos cheguem tão longe. É curioso, me parece que o livro é entendido melhor na Espanha do que no México. Pode ser porque os espanhóis pegam melhor os modismos argentinos, ironicamente...” continua o autor, intrigado com o amplo uso na Espanha do adjetivo “acojonante” [estupendo], que pronuncia com deleite, alargando as sílabas.

Escreveu pensando em chegar a um público amplo, agitando na coqueteleira temática ingredientes sempre presentes nos best-sellers? “De cara, o livro tem elementos que se combinaram bem, para além de mim. Antes, fiquei 10 anos sem escrever ficção. Escrevi muitos artigos, crônicas de viagem, colunas, blogs e desenvolvi um tom mais coloquial, sem querer perder precisão verbal, claro, mas sem ser muito lírico, sem fazer isso que se chama de alta literatura. Acho que me permiti, digamos, explosões criativas da linguagem que obedecem a trama, como quando o protagonista está convencido de que sua mulher o engana com um médico e solta uma diatribe contra os dois ou quando se intoxica, fumado e bêbado, e a linguagem se enreda de forma meio lírica. Mas, em geral, tudo confluiu em um estilo mais confessional”.

O nome próprio da uruguaia é Magali Guerra. O protagonista do livro, o escritor Lucas Pereyra, casado e com um filho, a conhece em um festival literário no Uruguai, que não se salva da ironia feroz que impregna todo o romance. Um ano depois, planeja uma viagem de Buenos Aires a Montevidéu para cobrar um dinheiro (evitando as restrições cambiais da Argentina) e sobretudo para se reencontrar com a bela jovem. “Me dou conta de que o protagonista provoca muita identificação e não só nos homens. Evidentemente, as mulheres também se sentem presas a seus parceiros, têm paixonites mentais como a do personagem. Essa válvula de escape não corresponde apenas aos homens”, comenta o autor, cujo último romance foi recebido com recomendações entusiasmadas de escritoras como Leila Guerriero e Guadalupe Nettel.

Há perguntas que por mais tópicas e simplórias que soem são difíceis de evitar, sobretudo nestes tempos marcados pela autoficção que coloniza as livrarias: o que há de autobiográfico no livro? “Usei muitas coisas da minha vida para o personagem e também inventei e exagerei. Minha mulher e eu tivemos de organizar um churrasco de domingo para minha família para explicar que não tínhamos nos separado. As pessoas entendem tudo de forma muito literal. É um jogo perigoso e tem seu custo. Mas ao mesmo tempo o leitor sempre inventa você. Minha mãe tinha no criado-mudo uma foto de [Albert] Camus, mas sem dúvida o Camus dela não tinha nada a ver com o meu. Não é preciso esclarecer o que é verdade. Há uma morbidez legítima na leitura.”

Também suscita morbidez conhecer quem vai interpretar a uruguaia na versão cinematográfica cujo roteiro está sendo feito pelo próprio Mairal e o escritor Hernán Casciari. “Estamos pensando em uma jovem atriz uruguaia. Vamos ver. O cineasta e psicanalista Diego Peretti quer codirigi-lo e Jorge Drexler quer fazer a canção final”, afirma o escritor, que maltrata e chacoalha seu patético, divertido e reflexivo protagonista.

Recebe inclusive mais pancadas que o Quixote de Cervantes. “Poderia ser uma boa comparação, porque também acho que é preciso maltratar o personagem. Há uma história na medida em que se maltrata o personagem, colocando-o à prova e daí vai saindo sua personalidade. O pobre Quixote é espancado duas vezes. No caso do meu personagem, as coisas não saem como ele deseja. A distância entre desejo e realidade sempre funciona na literatura. Isso é o Quixote. Todos somos um pouco assim, vivemos com nosso mundo inventado e todo o tempo damos de cara com a realidade. Assim funciona o Uruguai para os argentinos, como o país bacana onde vamos de férias, mas no romance não é assim.”

O dia em que Valdano se tornou intelectual
Em A uruguaia aparecem várias referencias à atualidade, também futebolística. As menções aos atacantes Sebastián Abreu e Luis Suárez parecem obrigatórias no transcorrer da ação em Montevidéu. “Não há nada que não seja literário. Tudo depende de como se olha. É verdade que escritores argentinos como Oswaldo Soriano, mas também o uruguaio Eduardo Galeano, se abrem ao mundo popular do futebol e o legitimam. Não sabia que Valdano tinha ajudado também a Espanha nesse sentido. De Valdano gosto de pensar que se tornou intelectual no dia em que Maradona lhe passou a bola, e isso que ia só correndo ao lado dele, em seu famoso gol contra os ingleses [na Copa do Mundo do México em 1986]. Valdano pensa muito o futebol a partir de dentro e isso é bom”.