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Bolsonaro mantém 28% e segue na liderança; Haddad vai a 22%, diz Ibope

terça-feira, setembro 25, 2018

SÃO PAULO (Reuters) - O candidato do PSL à Presidência, deputado Jair Bolsonaro, segue na liderança da corrida presidencial deste ano, mantendo 28 por cento das intenções de voto, seguido pelo petista Fernando Haddad, que chegou a 22 por cento, de acordo com pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira, que mostrou uma piora no desempenho de Bolsonaro nas simulações de segundo turno.

A pesquisa anterior do instituto, divulgada no dia 18, havia mostrado Bolsonaro com os mesmos 28 por cento das intenções de voto de agora, enquanto Haddad tinha 19 por cento.

O Ibope, divulgado nos sites do jornal O Estado de S. Paulo e G1, apontou Ciro Gomes com 11 por cento, repetindo a taxa da sondagem anterior, e Geraldo Alckmin (PSDB) com 8 por cento, ante 7 por cento. Como a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais, os dois estão em empate técnico.

Marina Silva (Rede) aparece com 5 por cento, ante 6 por cento há uma semana. João Amoêdo (Novo) oscilou para 3 por cento, ante 2 por cento, enquanto Alvaro Dias (Podemos) e Henrique Meirelles (MDB) mantiveram os mesmos 2 por cento da sondagem anterior.

De acordo com o Ibope, 12 por cento declararam voto branco ou nulo, ante 14 por cento na pesquisa anterior, enquanto 6 por cento disseram não saber em que votarão, ante 7 por cento.

SEGUNDO TURNO E REJEIÇÃO
Nas simulações de segundo turno Bolsonaro só não perde para Marina, com quem empata em 39 por cento —na semana passada ele vencia por 41 a 36 por cento.

Agora Haddad vence o candidato do PSL por 43 a 37 por cento —na pesquisa anterior havia um empate em 40 por cento.

Ciro tem a vitória mais folgada sobre Bolsonaro, 46 a 35 por cento, enquanto na semana passada os dois estavam em empate técnico, com uma vantagem numérica apertada para o pedetista, por 40 a 39 por cento.

Já Alckmin derrota o presidenciável do PSL por 41 a 36 por cento, depois de os dois empatarem em 38 por cento no levantamento anterior.

O Ibope também pesquisou a rejeição dos candidatos. Bolsonaro segue o mais rejeitado pelos eleitores, segundo o Ibope, com 46 por cento, ante 42 por cento na pesquisa anterior. A rejeição a Haddad foi a 30 por cento, ante 29 por cento.

Marina tem rejeição de 25 por cento, ante os 26 por cento anteriores, enquanto Alckmin é rejeitado pelos mesmos 20 por cento da pesquisa anterior, e Ciro tem rejeição de 18 por cento, ante 19 por cento.

O Ibope ouviu 2.506 pessoas entre sábado e domingo.

Profusão de pesquisas eleitorais acirra a disputa à Presidência da República

domingo, setembro 23, 2018

Institutos contratados por empresas financeiras tornam a cobertura das tendências praticamente diária.
Além de guiar voto útil, índices de intenção de voto podem ajudar a impulsionar ou arrasar campanhas



Se você é eleitor do deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) provavelmente gostou da última pesquisa BTG/FSB, que indicou 30% de intenção de voto para o capitão reformado do Exército. Foi o maior índice atingido por ele na segunda semana de setembro em qualquer das medições que alimentam o noticiário eleitoral quase que diariamente. Já os eleitores petistas puderam celebrar os 22% do ex-prefeito Fernando Haddad (PT) na única pesquisa Vox Populi/CUT desta campanha, que o mostrou à frente até de Bolsonaro. O candidato do PSL, líder nas pesquisas de institutos mais tradicionais, como Ibope e Datafolha, aparecia com apenas 18% no levantamento do Vox Populi, que justificou a disparidade entre seus números para os das outras pesquisas por ter associado o nome de Haddad ao do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diante das diferenças, qual dado estaria certo?

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), Duilio Novaes, todos. “Os levantamentos são feitos com diversos tipos de metodologia, e os resultados que a gente tem visto estão todos alinhados, não tem nada muito discrepante”, diz Novaes. A Abep tem um conselho de regulamentação com a prerrogativa de questionar como foram feitas as pesquisas e avaliar se foram bem conduzidas. Isso acontece sempre que alguma queixa é apresentada, mas o presidente da associação diz que isso é "bem raro".

Segundo o estatístico Paulo Guimarães, que trabalha em 13 Estados na eleição deste ano, o eleitor está mais exposto aos levantamentos nestas eleições. Além de Ibope, Datafolha, MDA e Vox Populi, a corrida eleitoral vem sendo abastecida por institutos como FSB, Ipespe, Paraná Pesquisas, DataPoder360 e Brasilis —desses, apenas DataPoder360 e Ipespe não fazem parte da Abep. Parte deles é contratada por instituições financeiras, cujas pesquisas causam oscilações na Bolsa de Valores de São Paulo e no valor do dólar quase que diariamente. Questionadas sobre o interesse de acompanhar as tendências eleitorais, BTG e XP Investimentos, que contratam pesquisas da FSB e do Ipespe, preferiram não comentar.

“Há quatro anos, tenho a impressão de que se a divulgação de pesquisas fosse como hoje, o Aécio [Neves] não chegaria onde chegou”, diz o estatístico. Em 2014, o senador tucano chegou a ser dado como carta fora do baralho durante a campanha, por aparecer empacado em terceiro lugar com 15% de intenções de voto, mas ultrapassou Marina Silva (então no PSB, hoje na Rede) na reta final do primeiro turno. Guimarães, que acompanhava de perto a campanha de Aécio e hoje presta consultoria para candidatos como Alckmin e o governador da Bahia, Rui Costa (PT), diz que as pesquisas têm o poder de reforçar as tendências que expõem. “Hoje, como se faz muita pesquisa aberta, [os eleitores dizem] ‘vou votar em fulano porque o outro não tem chance’. Sempre tivemos essas respostas, mas nunca em um grau tão elevado quanto agora”, diz, em referência aos grupos controle de eleitores que coordena.

Por conta da grande polarização que se estabeleceu entre os eleitorados anti-PT e anti-Bolsonaro, os institutos passaram a medir a possibilidade desse voto útil. Segundo o Ibope, 32% dos eleitores admitem grande chance de não votar em seu candidato de preferência para evitar a eleição daquele que consideram o pior presidenciável possível —outros 18% dizem que há possibilidade "média" de votar dessa forma. Quando questionados sobre se deixariam de votar no candidato de preferência para tentar eleger alguém com mais chances de vitória, 6% disseram que a possibilidade de fazê-lo é "muito alta" e 10% responderam que é "alta". As chances de vitória costumam ser medidas a partir das pesquisas de intenção de voto, que apresentam ainda os cenários de favoritismo para o segundo turno.

Por isso, o assunto se tornou tão sensível e alvo de questionamentos. Nesta sexta-feira, Ciro Gomes, do PDT, levantou dúvidas sobre os institutos durante campanha em Pindamonhangaba (SP). “Em um país onde se compra até deputado é razoável que a gente suspeite de que alguns institutos de pesquisa não estejam propriamente levantando números”, disse aos jornalistas, sugerindo que Geraldo Alckmin (PSDB) terá mais votos em São Paulo do que as pesquisas estão indicando —todas elas dão vantagem a Bolsonaro no Estado. Ciro disse ainda que os institutos de pesquisa serão "desmoralizados completamente" após a divulgação dos resultados do primeiro turno.

Na última quinta-feira, o Instituto Datafolha teve que explicar a metodologia de seus levantamentos depois de dois comunicados viralizarem no WhatsApp. Os dois textos são de autoria de James Gulbrandsen, gestor de investimentos da NCH Capital, gestora de fundos americana, e afirmam que as pesquisas trazem um "recorte tendencioso" e "uma parcela maior de pessoas que se identificam com ideais de esquerda", segundo afirmou o jornal Folha de S.Paulo. “O Datafolha, em seus levantamentos eleitorais, aplica conceitos e técnicas baseados na Teoria da Amostragem. As amostras são representativas da população estudada —neste caso o eleitorado brasileiro com 16 anos ou mais— e selecionadas através de critérios estatísticos, tendo como base fontes oficiais, como IBGE e TSE (...) O desenho da amostra é obtido através de método estatístico robusto e probabilístico", disse o Datafolha.

Mercado
Apesar do crescimento no número de cenários de intenção de voto divulgados, o mercado de pesquisas eleitorais parece menos aquecido neste ano do que 2014. Na última eleição, do dia 1º de janeiro até o dia 13 de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tinha registrado 498 pesquisas de nível nacional sobre a corrida presidencial. Durante o mesmo período deste ano, a quantidade registrada era de 331.

Para o presidente da Abep, é preciso esperar o balanço no mês de dezembro para ter noção exata sobre o impacto da eleição para o mercado, porque o ano está muito diferente. Segundo ele, o período de campanha mais curto do que o normal —caiu de 90 para 45 dias— pode ter concentrado a divulgação de pesquisas, dando a impressão de que a quantidade aumentou. A distribuição dessas informações por meio de redes sociais também pode ter tornado o processo eleitoral mais intenso, transportando os eleitores para dentro das campanhas, que acompanham o desenrolar do jogo político como se seguissem os trackings internos dos candidatos.


Álcool mata mais de três milhões de pessoas por ano, diz OMS

domingo, setembro 23, 2018




Relatório da Organização Mundial da Saúde revela que o consumo de bebidas alcoólicas é responsável por um em cada 20 óbitos em todo o mundo – matando mais do que a aids, a violência e acidentes de trânsito juntos.

Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta sexta feira (21/09) revelou que o consumo de bebidas alcoólicas matou mais de três milhões de pessoas em 2016 – mais do que o total de vítimas da aids, violência e acidentes de trânsito juntos.

O estudo afirma que o álcool é responsável por cerca de uma em cada 20 mortes em todo o mundo, incluindo os acidentes causados por motoristas embriagados, violência e abusos induzidos pelo álcool, além de uma ampla variedade de doenças. Mais de três quartos das vítimas são homens.

As mais de 3 milhões de mortes relacionadas ao consumo da substância registradas em 2016 – as estatísticas mais recentes disponíveis – correspondem a 5,3% de todos os óbitos naquele ano.

"Um número demasiadamente grande de pessoas, famílias e comunidades sofre as consequências do uso nocivo do álcool através da violência, lesões, problemas de saúde mental e doenças como câncer e derrames", disse em comunicado o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

O consumo de álcool está associado a mais de 200 problemas de saúde, como a cirrose hepática, e deixa as pessoas mais vulneráveis a doenças como a tuberculose, aids e pneumonia, afirma o relatório.

Quanto aos jovens, os números são ainda mais alarmantes. Segundo a OMS, 13,5% de todas as mortes de pessoas de idade entre 20 a 29 anos em 2016 têm relação com o consumo de álcool. A título de comparação, a aids é responsável por 1,8% das mortes em todo o mundo; os acidentes de trânsito, por 2,5%; e a violência, por 0,8% dos óbitos.

Apesar de alarmantes, os números ainda são menores do que os registrados no relatório anterior da OMS, divulgado em 2014. A agência afirma que há algumas tendências positivas, como a redução da ocorrência de mortes relacionadas ao álcool e ao consumo esporádico da substância desde 2010.

A OMS adverte, porém, que o grande número de "doenças e lesões causadas pelo consumo nocivo do álcool é inaceitavelmente alto", especialmente na Europa e nas Américas. Estima-se que, em todo o mundo, 237 milhões de homens e 46 milhões de mulheres sofram de males provocados pelo consumo de álcool.


Na Europa, o problema atinge quase 15% dos homens e 3,5% das mulheres e, nas Américas, 11,5% dos homens e 5,1% das mulheres são afetados. Por outro lado, mais da metade da população com mais de 15 anos de idade se abstém completamente das bebidas alcoólicas.

Em média, os 2,3 bilhões de indivíduos considerados consumidores de álcool – aqueles que consumiram bebidas ao menos uma vez durante o ano – ingeriram 33 gramas diárias da substância pura, o que equivale, a grosso modo, a dois copos de vinho, uma garrafa de cerveja ou duas doses de destilados.

A Europa ainda é o maior consumidor per capita, com 10 ou mais litros de álcool puro consumidos anualmente, apesar de uma queda de mais de 10% registrada desde 2010. A OMS alertou, porém, que em outras regiões o consumo tende a aumentar. Isso ocorre especialmente na Ásia, com a China e a Índia registrando os números mais acentuados.

A OMS pede aos países que aumentem os impostos sobre as bebidas alcoólicas e proíbam as propagandas do produto, especialmente em eventos esportivos, como forma de coibir o consumo.

RC/afp/ap

China e Vaticano anunciam acordo histórico para retomar laços

domingo, setembro 23, 2018



Papa reconhece sete bispos indicados pelo regime chinês, como parte de um pacto rumo ao degelo diplomático. Relações entre Pequim e a Santa Sé foram rompidas há 67 anos, tendo a China sua própria Igreja Católica.

O Vaticano e a China anunciaram neste sábado (22/09) um acordo histórico que promete contribuir para o degelo das relações diplomáticas entre ambos, rompidas há quase 70 anos. O primeiro passo foi o reconhecimento por parte da Santa Sé de bispos nomeados pelo governo chinês.

Como parte do acordo, o papa Francisco aceitou neste sábado a nomeação de sete bispos chineses, entre os 60 indicados pelo regime do país nas últimas décadas sem o consentimento do Vaticano. Em outros países, é normalmente o pontífice quem nomeia os bispos locais.

Até então, a China vinha se recusando a aceitar que a nomeação viesse do Vaticano, uma vez que não reconhece o papa como chefe da Igreja Católica, enquanto a Santa Sé se negava a reconhecer que bispos fossem impostos pelo governo comunista, o que não ocorre em outros países.

Segundo um comunicado do Vaticano, os bispos chineses reconhecidos por Francisco são Giuseppe Guo Jincai, Giuseppe Huang Bingzhang, Paolo Lei Shiyin, Giuseppe Liu Xinhong, Giuseppe Ma Yinglin, Giuseppe Yue Fusheng e Vincenzo Zhan Silu.

"O papa Francisco deseja que, com as decisões tomadas, seja possível iniciar um novo caminho que permita superar as feridas do passado, realizando a plena comunhão de todos os católicos chineses", acrescenta a nota.

O acordo que trata da futura nomeação de bispos chineses, ainda provisório, foi assinado neste sábado em Pequim pelo subsecretário de relações do Vaticano com os Estados, Antoine Camilleri, e pelo vice-ministro do Exterior da China, Wang Chao.

O Vaticano não informou o conteúdo do acordo, mas fontes sugerem que, daqui em diante, é o papa quem terá a palavra final sobre a nomeação dos bispos, que serão, contudo, escolhidos com ajuda do governo em Pequim e seguindo algumas propostas do governo chinês.


Falando de Vilnius, na Lituânia, onde Francisco estava em visita, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, indicou apenas que o acordo servirá como um modelo para futuras nomeações de bispos, que lideram os fiéis em suas diversas dioceses espalhadas pelo mundo.

Burke acrescentou que o pacto "não é político, mas pastoral, a fim de permitir que os fiéis tenham bispos que estejam em comunhão com Roma mas, ao mesmo tempo, sejam reconhecidos pelas autoridades chinesas".

Com o pacto, a China e o Vaticano resolvem seu principal motivo de conflito. Os dois Estados cortaram seus laços diplomáticos em 1951, dois anos depois de o líder comunista Mao Tsé-tung ter estabelecido a República Popular da China.

À época, a Santa Sé excomungou dois bispos nomeados por Pequim, e as autoridades chinesas reagiram com a expulsão do núncio apostólico, que se assentou na ilha dissidente de Taiwan.

Desde então, o regime chinês só reconhece o catolicismo através de sua Igreja Patriótica Chinesa, desvinculada do Vaticano. Com o acordo deste sábado, espera-se que as duas Igrejas passem a ser uma só.

As tentativas de restaurar as relações bilaterais entre a China e o Vaticano foram retomadas com o pontificado de Francisco, tendo ambas as partes manifestado em diversas ocasiões vontade de melhorar seus laços.

Críticos, porém, condenam a retomada de laços pastorais entre os dois Estados, e chegaram a classificar o acordo deste sábado de traição. "Eles estão colocando o rebanho na boca dos lobos. É uma incrível traição", afirmou o cardeal Joseph Zen, ex-arcebispo de Hong Kong, que liderou a oposição ao pacto.

"As consequências serão trágicas e duradouras, não só para a Igreja na China, mas para toda a Igreja Católica, porque prejudica a credibilidade", acrescentou o cardeal, em entrevista à agência de notícias Reuters.

Análise: a carta de FHC

domingo, setembro 23, 2018



Ex-presidente sugeriu que candidatos se unam contra Bolsonaro e Haddad em torno de candidatura com mais condições de obter coesão nacional, mas menção posterior, no Twitter, ao nome de Alckmin repercute mal.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso divulgou na quinta-feira (20/09) uma carta aberta apelando para que os candidatos "que não se aliam a visões radicais" se unam. Mesmo sem citar nomes, ele indicou que propôs uma convergência de presidenciáveis contra as candidaturas do ex-capitão Jairo Bolsonaro (PSL), que está em primeiro lugar nas pesquisas, e o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), que aparece em segundo.

Fernando Henrique também não especificou na carta quem seriam esses candidatos moderados que, segundo ele, poderiam se unir, mas é possível deduzir que o grupo inclui Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Henrique Meirelles (MDB), Alvaro Dias (Podemos) e até Ciro Gomes (PDT). Todos eles permanecem nas últimas pesquisas estacionados ou em tendência de queda, mas somados seguem reunindo 34% das intenções de voto, segundo o último Datafolha. 

FHC diz ainda que o fato de o primeiro colocado nas pesquisas ser um candidato que prega o "ódio" como Bolsonaro e que tem como principal opositor alguém como Haddad – que "representa um líder preso" por acusações de corrupção – "mostra o ponto a que chegamos".

Segundo o ex-presidente, tanto Haddad quanto Bolsonaro terão "enormes dificuldades para obter a coesão nacional suficiente e necessária para adoção das medidas que levem à superação da crise".

"Ainda há tempo para deter a marcha da insensatez", escreveu o ex-presidente, que propôs uma união do restante dos candidatos no estilo das Diretas Já, "sem partidarismo e personalismo": "que os candidatos que não apostam em soluções extremas se reúnam e decidam apoiar quem tiver melhores condições de êxito eleitoral". Do contrário, segundo ele, "a crise tenderá certamente a se agravar".

FHC também não especificou na carta qual seria o candidato que, segundo ele, reúne as melhores condições de êxito eleitoral. No entanto, pouco depois da publicação, ele disse no Twitter que Alckmin preenche os requisitos. "Enviei carta aos eleitores pedindo sensatez e aliança dos candidatos não radicais. Quem veste o figurino é o Alckmin, só que não se convida para um encontro dizendo 'só com este eu falo'", escreveu o ex-presidente.

Apesar do tom conciliador e preocupado da carta, o apelo de FHC acabou repercutindo mal entre outros candidatos, em especial por apontar que Alckmin, do mesmo partido do ex-presidente e que está estacionado no último Datafolha com 9% das intenções de voto, seria um provável unificador.

A ex-ministra Marina Silva ironizou a frase do ex-presidente de que Alckmin "veste o figurino". "Ninguém chama para tirar as medidas com a roupa pronta", disse Marina. Já Alvaro Dias, que conta com 3% das intenções de voto, rechaçou a proposta afirmando que Alckmin é quem deveria renunciar a favor de outro candidato. "O PSDB vem perdendo do PT desde 2002", disse.

Henrique Meirelles, que tem 2% das intenções de voto, por sua vez, disse que FHC "tentou falar com correligionários, mas não conseguiu". "Se o candidato do PSDB renunciar em favor da minha candidatura, eu aceito", disse. Ciro Gomes foi mais longe e afirmou que FHC "é um dos responsáveis pela situação em que o país se encontra".

Após a polêmica, o ex-presidente defendeu que escreveu a carta "aos eleitores e eleitoras, não aos candidatos ou aos partidos". "Há meses repito ser necessário um 'centro popular e progressista'. Parece que na conjuntura água mole não racha pedra dura. O que não muda minhas convicções", escreveu ele no Twitter neste sábado (22/09).

Segundo o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a carta de FHC tem mais o efeito de um alerta do que prático. "Ele manifesta sua preocupação com os destinos da democracia no Brasil. Ele coloca que essa polarização entre Bolsonaro e Haddad não é apenas uma questão eleitoral, mas política", opina.

"Ele está avisando que a democracia foi difícil de ser conquistada, e não é o momento eleitoral que pode colocar em risco essa conquista. É a carta de um intelectual, de um professor de ciência política que foi perseguido pela ditadura."

Ainda segundo Prando, é improvável que a carta tenha algum efeito nas candidaturas, em especial a de Alckmin. "O grande problema é que o centro se fragmentou muito e quem foi sobretudo prejudicado foi Alckmin. O próprio Fernando Henrique sabe das dificuldades de Alckmin. Ele já cantou essa bola no início do ano quando manifestou entusiasmo com uma possível candidatura de Luciano Huck", afirma.

Segundo o especialista, "é muito difícil alguém fazer um gesto no primeiro turno para apoiar outro candidato. Ainda há 15 dias de campanha, mas o cenário que se desenha é mesmo de um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad".

Mais Lula, menos Dilma: a promessa econômica de Haddad para atrair o centro

quinta-feira, setembro 20, 2018

Petista escanteia Marcio Pochmann e divulga a mensagem de que questão fiscal em seu governo será importante, mas calibra discurso para rechaçar ajuste radical de ex-ministro da Fazenda de Dilma





Quando o jornal O Estado de S.Paulo realizou, no final de agosto, uma série de sabatinas com os formuladores das propostas econômicas de cada um dos presidenciáveis, o Partido dos Trabalhadores apontou como seu representante o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Marcio Pochmann. Aos 56 anos e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pochmann tem larga militância no PT — atualmente é candidato a deputado federal e presidente da Fundação Perseu Abramo, braço formativo do partido. Ele é também um dos maiores representantes da ala mais desenvolvimentista do petismo: na sabatina do Estadão, por exemplo, disse que a Previdência “não precisa de uma reformulação geral”, mas de “mudanças pontuais”. Frases que soam a heresia nos ouvidos do mercado financeiro.

Menos de um mês depois, o tradicional programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura, organizou uma edição com economistas indicados pelos principais candidatos à Presidência da República. Na bancada reservada ao PT já não estava Pochmann, mas o economista Ricardo Carneiro. Também professor da Unicamp, Carneiro está muito longe de ser um liberal, mas o fato de ele ter sido escalado para participar do encontro televisivo — e o que ele disse ali — é sintomático de um passo que o agora candidato da sigla, Fernando Haddad, começa a ensaiar. Consolidado no segundo lugar nas pesquisas de opinião, Haddad passou a enviar sinais públicos de que, se eleito, não dará um “cavalo de pau” à esquerda na economia e de que quer preservar pontes com o setor financeiro.

“O Ricardo [Carneiro] é mais cuidadoso com a questão fiscal do que o Marcio [Pochmann]”, diz um economista próximo ao PT.

No Roda Viva desta segunda à noite, Carneiro contracenou com os economistas Persio Arida (coordenador do programa econômico de Geraldo Alckmin), Mauro Benevides (Ciro Gomes) e Bazileu Margarido (representando Marina Silva). Se Carneiro manteve a defesa de uma linha desenvolvimentista, a partir principalmente da criação de um orçamento próprio para investimentos, também é verdade que adotou um tom mais conciliatório. “Nós achamos que existe um problema fiscal e que o déficit [público] é uma das dimensões. A nossa diferença é o timing no qual você vai defender esse déficit. Estamos propondo que você zere o déficit em quatro anos, não dois”, afirmou o economista do PT no programa. “Nós não pretendemos, para financiar investimentos, aumentar o déficit. Nós pretendemos depois discutir como remanejar um conjunto de despesas importantes para fazer esses investimentos”.

Outro tema abordado por Carneiro foi a emenda constitucional sancionada pelo presidente Michel Temer que limita o crescimento do gasto público — e que o PT promete revogar caso volte ao poder. “Nós não concordamos com a regra do teto [de gastos] corrigida pela inflação. Tira completamente a flexibilidade, ela não é razoável numa economia em que você precisa ampliar os gastos per capita em educação e saúde e em que a Previdência vai crescer inevitavelmente [...] Então, primeiro é uma regra fiscal que para nós poderia ser a indexação pelo PIB (Produto Interno Bruto), porque isso mantém a carga tributária constante", declarou.

O tom menos radical foi percebido inclusive por especialistas que militam no espectro oposto do pensamento econômico. Para Fernando de Holanda Barbosa Filho, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças, da Fundação Getúlio Vargas, Carneiro tentou empreender uma “mudança retórica” no discurso do PT, mas que “não combina" com o programa que o partido vinha defendendo publicamente desde o início da campanha. “Ele não falou, por exemplo, do uso das reservas internacionais, algo que até do ponto de vista legal é complicado”, diz.

As declarações mais moderadas do economista do PT não foram a única sinalização recente de que, na área econômica, a campanha de Haddad terá cada vez menos a cara do ex-presidente do Ipea. Em sabatina na segunda, o presidenciável foi questionado sobre as opiniões de Pochmann, e tratou de diluir seu protagonismo: “O Marcio [Pochmann] é um professor, candidato a deputado federal e uma pessoa independente do ponto de vista intelectual. Ele participou [do programa de governo] como 300 outras pessoas participaram”.

Nesta quarta, quando questionado sobre o perfil de seu eventual ministro da Fazenda, Haddad disse que seu escolhido vai ter "perfil pragmático", "sem ser sectário". O perfil, segundo ele, é o dele mesmo. "Os economistas figurões são muito sectários, acham que são donos da verdade. Quando você está no Governo, tem de ter jogo de cintura, pragmatismo e flexibilidade para saber buscar a solução”, seguiu.

Mais Lula, menos Dilma
Como até o início da semana passada todas as atenções da campanha do PT estavam centradas na operação de substituição da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por Haddad, uma série de questões ficaram em segundo plano no comitê petista. Entre eles, quem seria o porta-voz da política econômica de um eventual retorno de um presidente do partido ao Palácio do Planalto.

Agora, Haddad passa a discutir com seus assessores econômicos os detalhes da mensagem que quer empunhar. A de que, apesar da polarização atual da sociedade brasileira, não está disposto a empreender uma aventura radical na condução da economia; que será fiscalmente responsável e planeja promover uma administração na qual os investidores tenham previsibilidade e segurança jurídica. "Não tem bicho-papão", resume um aliado do candidato.

O problema é encontrar uma maneira de fazer isso renegando o brusco ajuste fiscal promovido pela ex-presidenta Dilma Rousseff após a sua reeleição, quando a então mandatária escolheu para o ministério da Fazenda Joaquim Levy. Logo de largada e de forma oposta ao prometido na campanha, Levy propôs uma série de medidas de corte de despesas e de aumento de arrecadação, mas o tamanho do ajuste e a estagnação da economia — somados ao passado do então ministro como executivo do Bradesco e egresso do cânone neoliberal mundial, a Universidade de Chicago — geraram uma sucessão de crises com o PT e um choque de confiança com parte do eleitorado. Os atritos internos  culminaram, no final de 2015, com a demissão de Levy e a sua substituição por Nelson Barbosa. Até hoje setores do petismo não poupam Dilma pela guinada radical promovida por Levy.

Diante da necessidade de promover um equilibrismo no discurso, Haddad tem investido na linha que pode ser definida como "mais Lula, menos Dilma". Em entrevista nesta segunda, o candidato repetiu que considera a política econômica dos governos petistas até 2012 "praticamente irretocável", mas reconheceu que erros foram cometidos. "Em 2013 e 2014, a própria Dilma admite que algumas medidas ela não tomaria. [Ela] cita o caso das desonerações e da [revisão dos contratos no setor de] energia elétrica", disse Haddad. Soma-se a essa tímida autocrítica o controle dos preços dos combustíveis pela ex-presidenta para reduzir artificialmente a inflação.

Independentemente disso, permanece em aberto na campanha a pergunta: quem será capaz de conduzir esse aceno ao centro com credibilidade e sem incorrer num receituário como o de Levy que poderia ser lido como traição da base? Em 2002, quando se elegeu presidente pela primeira vez, Lula  fez uma "carta ao povo brasileiro" se comprometendo com o equilíbrio fiscal para acalmar os ânimos do mercado, que naquele ano estavam ainda mais voláteis do que agora. Ancorou-se num ministro da Fazenda político — Antonio Palocci — e num presidente do Banco Central — Henrique Meirelles — com longa carreira no setor financeiro e que naquele mesmo ano havia sido eleito deputado federal pelo PSDB. Até o momento, no comitê petista não há um economista com força suficiente para cumprir esse papel. Haddad sinaliza o rol para ele mesmo.

Contra Bolsonaro ou PT, o voto útil promete definir os rumos para o segundo turno

quinta-feira, setembro 20, 2018

Apesar do grande número de presidenciáveis, intensa polarização tende a dirigir escolha do eleitor.
Segundo diretor do Datafolha, brasileiros têm acompanhado pesquisas com mais intensidade







O eleitor brasileiro tem 13 candidatos a presidente para escolher nas eleições deste ano, mas a dinâmica eleitoral tende a reduzir muito as opções na reta final do primeiro turno. Os polos representados na campanha pelo deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora substituído por Fernando Haddad (PT), prometem dirigir as escolhas de parte da população para um voto útil, no qual o eleitor deixa de escolher seu candidato favorito para tentar evitar o que identifica como o pior resultado possível.

A escolha pelo candidato considerado menos pior deve começar a se configurar nas próximas pesquisas de intenção de voto, aposta o diretor do Datafolha, Mauro Paulino. "Como houve esse embolamento na disputa pela segunda colocação, acho muito possível que essa prática do voto útil aumente, seja maior do que em eleições anteriores e que os eleitores já comecem a pensar nisso bem antes do que de costume, antes da última semana [de eleição]", diz Paulino. O "embolamento" a que ele se refere é o empate técnico entre Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede), Alckmin e Haddad, identificado pelas últimas pesquisas de intenção de voto.

Na expectativa de se descolar desse grupo, Alckmin afirmou na última quarta-feira, durante uma agenda de campanha em Betim (MG), que “Ciro foi ministro do Lula, sempre apoiou o PT, até a Dilma", e seguiu: "O Meirelles se vangloria de ter sido ministro e presidente do Banco Central do PT, a Marina Silva foi 24 anos filiada ao PT e agora o Haddad... é inacreditável você lançar uma candidatura na porta da penitenciária”. Alckmin divide eleitorado com Henrique Meirelles (MDB), Alvaro Dias (Podemos) e João Amoêdo (Novo), todos com cerca de 3% de intenção de voto nas pesquisas.

 A expectativa é de que o voto útil poderia atrair alguns desses eleitores para o tucano. Apenas 35% dos eleitores de Meirelles se dizem totalmente decididos a votar nele, segundo o Datafolha, enquanto 43% dos votantes de Dias estão definidos. No caso de Amoêdo, a convicção é de 53%. Para rebater a estratégia, o partido Novo, em particular, tem feito campanha contra o voto útil e críticas aos tucanos. “A prisão do ex-governador do Paraná Beto Richa, atual candidato ao Senado pelo PSDB, e o mandado de busca e apreensão na casa do governador do Mato Grosso do Sul, também do PSDB, vai deixando claro como PT e PSDB são da mesma política, da velha política", diz Amoêdo em vídeo divulgado por sua campanha no qual pede renovação.

Os eleitores de Amôedo — e de Alvaro Dias — também têm sido alvo da militância pró-Bolsonaro. Os apoiadores do capitão reformado do Exército gostariam de terminar a disputa no primeiro turno, um cenário que neste momento parece muito improvável, e tentam convencer nas redes sociais os eleitores desses adversários a direcionarem seus votos para o militar reformado. "Bolsonaro pode estar a um Amoedo ou a um Álvaro Dias de vencer no 1° turno", afirmou o filho dele, Flávio Bolsonaro, em seu Twitter. Pela última pesquisa Ibope, entretanto, o deputado do PSL teria 35% dos votos válidos.

Alckmin, por sua vez, segue mirando contra Bolsonaro, com quem compete pelos votos anti-PT. "Vejo que o Bolsonaro é um passaporte para voltar o PT. Isso é fato. É só olhar o segundo turno (...) Você vota em um e elege o outro. Então vamos trabalhar muito para chegar no segundo turno”, disse durante a passagem por Minas Gerais. O melhor cenário para o tucano seria chegar à reta final de campanha com intenções de voto o bastante para ser considerado viável, o que poderia lhe render votos antes direcionados a outros candidatos de direita. Por isso, o destaque dado pelo tucano ao segundo turno parece sua grande aposta para engrenar uma campanha que evolui num ritmo devagar demais para o candidato com mais tempo de exposição na televisão.

Segundo o diretor do Datafolha, diante dos números apontados pelas pesquisas, o eleitor já começa a pensar em seu plano B. "A pesquisa é a ferramenta ideal para perceber esse voto calculado. Elas têm ganhado mais repercussão e credibilidade a cada eleição. Os próprios eleitores estão prestando mais atenção", comenta. A CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, destaca, contudo, que "não temos ainda nenhuma estimativa sobre qual é a proporção de eleitores que pretendem votar de uma forma mais estratégica". "Desde 1994, as eleições presidenciais sempre foram disputadas entre PT e PSDB, então não temos histórico de voto útil nas últimas seis eleições presidenciais. Temos observado que o eleitor decide o seu voto, cada vez mais tarde, nos últimos dias que antecedem as eleições, vamos acompanhar esse processo decisório e avaliar se há alguma movimentação no sentido do voto útil", diz.

Esquerda
Pela esquerda do espectro político, Haddad tenta se colocar no segundo turno, se contrapondo a Ciro Gomes, ex-ministro de Lula que fez sua vida política no Nordeste, o que já o coloca em vantagem na região, que é o segundo maior colégio eleitoral do país. 

A vantagem de Haddad é conseguir assegurar uma parte do estoque de votos de Lula que lhe parece reservada — o ex-prefeito de São Paulo, que hoje aparece com algo em torno de 8% nas pesquisas, teria espaço para crescer a pelo menos 15%, afirmam analistas. Já a vantagem de Ciro, segundo Paulino, é que ele tem demonstrado mais indignação, algo que chama a atenção do eleitor no momento. Os eleitores de esquerda também podem se reunir, nas últimas semanas do primeiro turno, em torno da candidatura que estiver somando mais votos, com a expectativa de conseguir colocar um candidato de seu campo ideológico para enfrentar Bolsonaro em um segundo turno. Por isso, Ciro busca se consolidar como candidato da esquerda não-radical, para atrair, além dos votos progressistas desiludidos com o PT, os votos mais ao centro, desiludidos com o PSDB, mas que jamais votariam em um candidato mais radical, como o militar reformado.

Apesar das expectativas em relação ao voto estratégico, o especialista em marketing eleitoral Victor Trujillo alerta para o risco de "superestimar o discernimento do eleitor em relação a esses campos políticos de centro, esquerda, direita". Segundo ele, ainda é cedo para falar em voto útil. "O eleitor vai mudar de opinião até o dia das eleições, mesmo aqueles que dizem que não vão mudar de opinião", diz o professor da ESPM. Trujillo também chama atenção para o voto pragmático do eleitorado. Em especial o das mulheres mais pobres, que dependem mais dos serviços públicos e votam naqueles candidatos que mais conseguem convencê-las de que a situação melhorará.

E se o agressor de Bolsonaro tivesse uma arma de fogo?

quinta-feira, setembro 20, 2018

Pesquisadores avaliam riscos de uma ampliação no porte de armas em uma eleição polarizada e violenta





Há seis meses o Brasil espera respostas sobre o crime que provocou o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). A parlamentar foi atingida com quatro tiros na cabeça no dia 14 de março em uma avenida do Rio de Janeiro, durante a intervenção militar que transferiu o controle da segurança do Estado para um general. Também no último mês de março, dois ônibus da caravana do ex-presidente Lula (PT) foram alvejados no Paraná, mas ninguém foi atingido. Cinco meses depois, o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi esfaqueado enquanto cumpria agenda de campanha em Juiz de Fora (Minas Gerais). Os três casos são emblemáticos no atual contexto de grande polarização política no Brasil, que implementou há 15 anos sua política de desarmamento. Em uma sociedade acostumada a resolver seus conflitos mais banais com violência, apontam especialistas em Segurança Pública, os resultados poderiam ser ainda mais graves com a ampliação do porte de armas para a população.

"Esses casos não estão tendo uma punição rápida, então vai criando uma sensação de impunidade. Estamos chegando em um cenário de vale tudo", analisa o pesquisador Ricardo Moura, do Laboratório de Conflitualidade e Violência da Universidade Estadual do Ceará. Um cenário que, segundo ele, comportaria o ataque protagonizado por Adélio Bispo de Oliveira contra o presidenciável Jair Bolsonaro, o mesmo candidato que defende a liberação do porte de armas como forma de proteção individual e combate à violência. "Pra se manter vivo, Bolsonaro contou, de uma forma muito irônica, com a proibição do porte de armas. Se a gente vivesse em uma situação como a que já ocorreu, de poder comprar arma em loja de departamento, o desfecho desse ataque poderia ser ainda mais brutal", afirma Moura.

O pesquisador explica que a faca utilizada pelo agressor exige uma aproximação maior e tem um ângulo de ataque restrito ao movimento do próprio braço. Se portasse uma arma de fogo neste momento, acrescenta, a possibilidade de alvejar um órgão letal seria maior. "Se o agressor pudesse andar de forma tranquila com uma arma legalizada, o risco à vida do candidato ficaria sob uma ameaça ainda maior", declara.

Mas nem Bolsonaro nem seus correligionários concordam com essa premissa. No sábado logo após o atentado, 8 de setembro, o deputado estadual Flávio Bolsonaro publicou no Twitter uma imagem do pai, internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein, fazendo um gesto de arma com as mãos. Em entrevista concedida nas portas do hospital, momentos antes de visitar o pai esfaqueado,  Flávio disse que sua família seguirá defendendo a ampliação do porte de armas para todos os cidadãos. “Quem mata não são as armas, mas as pessoas”, argumentou.

O assunto é polêmico. Uma pesquisa de opinião conduzida diariamente pelo Atlas Político indica que 59,7% dos brasileiros são contra a ampliação da autorização para porte de armas no País enquanto 32,2% são a favor. De um lado, a ampliação do porte de armas tem um certo clamor popular por oferecer uma suposta sensação de segurança ao cidadão. De outro, especialistas analisam que o desarmamento foi uma das políticas de Estado na área de segurança pública mais eficientes para combater os crimes de homicídio no Brasil.

"O porte de armas é um risco alto que não é percebido pela sociedade em geral", afirma Ignacio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Segundo ele, a proteção individual do cidadão não é uma alternativa, e a única solução para a insegurança é a melhoria do serviço prestado pelo Estado. "Boa parte das mortes dos policiais no Brasil não ocorrem quando estão em serviço, mas por tentar reagir a um assalto. Imagina como seria isso com o cidadão comum armado", projeta. Para ele, se o porte de armas para o cidadão comum fosse liberado no Brasil, o atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro poderia ter evoluído para um tiroteio grave. "Uma proliferação de armas ali seria perigosa não só para o candidato, mas para todos", ressalta.

Flexibilização do estatuto do desarmamento
Pelo menos três dos doze candidatos à Presidência nas eleições deste ano já declararam ser favoráveis a algum tipo de flexibilização do Estatuto do Desarmamento. Jair Bolsonaro defende o porte de arma para o cidadão comum com algumas restrições, como por exemplo um exame psicológico. Álvaro Dias (Podemos) quer reduzir as negações das autorizações pela Polícia Federal, que, para ele, não se restringem apenas aos critérios estabelecidos em lei. Já o tucano Geraldo Alckmin quer a posse de armas para os proprietários rurais. "Com tantos atentados contra os políticos, fica o questionamento para a sociedade se o Brasil tem condições hoje em ter uma política de controle de armas menos rigorosa. Eu acho que não", afirma o diretor-executivo do instituto Sou da Paz, Ivan Marques. 

Segundo ele, o País precisa seguir com uma legislação rigorosa em relação ao acesso às armas de fogo e com políticas para o desarmamento. Isso porque a sociedade brasileira já tem a característica de resolver conflitos cotidianos — como uma briga num bar ou no trânsito — com violência. Essa característica alcança também a esfera política, evidenciada neste ano pela polarização eleitoral.  "Nós temos atualmente uma mistura nociva entre o mundo político e a violência. Tornar o controle de armas menos restritivo me parece um erro que só vai aumentar a violência brasileira, que já é enorme. Espero que os últimos atentados mostrem que não devemos ampliar, mas restringir o acesso às armas", defende.

Influência eleitoral das facções
A violência tem sido protagonista neste ano eleitoral. Por meio da força e do crime, se tenta influenciar os resultados das urnas no dia 7 de outubro. Para além dos atentados contra os candidatos, o pesquisador Ricardo Moura cita a influência das facções criminosas em algumas regiões do Brasil. "No Ceará estão ameaçando eleitores e restringido o acesso de determinados candidatos. Nós temos no Brasil a violência da polarização e temos também o crime organizado se posicionando de uma forma política e tentando interferir na escolha do eleitor", diz. O desafio do país é conseguir chegar ao dia 7 de outubro com o menor índice de violência possível. "Nos aproximamos de um primeiro turno muito acirrado e indefinido. É importante que a gente esteja atento também para reforçar a segurança nos dias de votação", finaliza.

Stormy Daniels revela suas relações com Donald Trump em um livro de memórias

quinta-feira, setembro 20, 2018

Atriz pornô diz que o sexo com o atual presidente dos EUA, que qualifica de “palhaço”, foi talvez o “menos impressionante” de sua vida






A estrela pornô Stormy Daniels, que afirma ter tido um brevíssimo romance com Donald Trump em 2006, conta no livro que escreveu sobre sua relação com o presidente dos EUA que o sexo com ele foi talvez o "menos impressionante" de sua vida, de acordo com trechos das memórias publicadas nesta terça-feira, 18, pelo jornal britânico The Guardian. No livro ela traça um "retrato intensamente íntimo de um Trump palhaço e inseguro", questiona que esteja apto a ser presidente e afirma que ele lhe propôs trapacear em seu reality show.

No livro Full Disclosure (revelação total) que será lançado em 2 de outubro, Daniels, cujo nome verdadeiro é Stephanie Clifford, descreve até os genitais de Trump e os compara com "uma enorme cabeça de cogumelo". "E fiquei lá estendida, irritada porque estava sendo fodida por um cara com púbis de Yeti e um pau como o personagem cogumelo do Mario Kart", diz a mulher textualmente no livro. Ela também afirma que o pênis do magnata é "menor que a média", mas "não anormalmente pequeno". O The Guardian explica que obteve uma cópia do livro, que será publicado a um mês das eleições legislativas de 6 de novembro nos Estados Unidos.

Trump, cujo índice de apoio popular está em mínimos históricos para um presidente há apenas dois anos no cargo, nega ter tido um relacionamento com Daniels. No entanto, seu advogado Michael Cohen se declarou culpado de violar as regras sobre financiamento de campanha depois de reconhecer que em 2016 pagou a Daniels 130 mil dólares (cerca de 535.000 reais) para comprar seu silêncio. Em março, Daniels entrou com uma ação para anular este acordo de confidencialidade. A estratégia de Trump e Cohen é evitar por todos os meios que eles tenham que depor no caso.

Daniels, de 39 anos, que coopera com a procuradoria de Nova York na investigação, diz que teve um encontro sexual com Trump em Lake Tahoe, Califórnia, onde foi realizado um torneio de golfe em 2006, poucos meses depois que a mulher de Trump, Melania, deu à luz seu único filho, Barron. Lá eles começaram um caso sexual e os encontros se estenderam até 2007.

No livro, Daniels, que falou pela primeira vez sobre o caso em uma revista em 2011, diz que o affair com o atual presidente começou quando um de seus guarda-costas a convidou para jantar com o famoso empreendedor imobiliário e apresentador do programa de televisão The Apprentice. A noite terminou na cobertura de Trump. "Pode ter sido o sexo menos impressionante que eu tive em minha vida, mas claramente ele não tinha a mesma opinião", escreve Daniels, que diz logo ter se sentido enojada com o caso.

A atriz pornô relata que se manteve em contato com Trump durante todo o ano seguinte com a esperança de participar de seu programa de televisão. Ela diz que Trump ofereceu a ela um lugar no programa e até sugeriu que poderia trapacear para que ela ficasse em mais episódios.

"Ele iria me fazer trapacear e foi 100% ideia dele", diz no livro. Daniels afirma que a vitória de Trump nas eleições presidenciais foi uma surpresa incrível para ela. "Isso nunca vai acontecer", a atriz pornô afirma ter comentado com pessoas próximas a ela. "Ele nem quer ser presidente." Anos depois, toda vez que via Trump na televisão, escreve Daniels, ela dizia a si mesma: "Eu fiz sexo com isso, Puag".

Depois da publicação do artigo do Guardian, Michael Avenatti, o advogado de Daniels, afirmou em um tuíte que "a coisa mais importante (sobre o livro) não é a descrição de seu relacionamento sexual com Trump". "É a descrição de sua vida e seu papel como uma mulher moderna, sem medo de dizer a verdade ao poder", disse. "Donald Trump, Michael Cohen, Sarah Sanders, Rudy Giuliani, Laura Ingraham, Fox News, Brit Hume e outros chamaram minha cliente de mentirosa. Veremos se eles continuam a fazer isso" quando o livro for publicado, acrescentou, em entrevista à CNN. Segundo o site da rede de livrarias Barnes and Noble, a editora do livro é a St. Martin's Press, subsidiária da gigante Macmillan.

A maioria dos iogurtes tem tanto açúcar quanto os refrigerantes

quinta-feira, setembro 20, 2018

Apenas 10% são baixos em açúcares, porcentagem que cai para 2% nos produtos destinados às crianças, segundo um estudo britânico




Um iogurte tem o mesmo nível de açúcar que a quantidade equivalente de um refrigerante comum. E se for orgânico ou um petit suisse (tipo "danoninho"), também. Um estudo com quase 900 iogurtes e similares mostra que a grande maioria é extremamente açucarada. Apenas 9% deles são baixos em açúcares, e a porcentagem é ainda menor entre os destinados às crianças e os orgânicos. A análise foi feita no Reino Unido, e mostra que os produtos com imagem de saudáveis também têm um lado escuro.

A Organização Mundial da Saúde publicou em 2015 uma série de recomendações sobre o consumo de açúcar de crianças e adultos por sua relação com uma série de doenças e com o excesso de peso. Uma delas é que a porcentagem de energia proveniente de açúcares livres (na maioria, adicionados ou não presentes naturalmente no produto) fosse inferior a 10% do total de calorias ingeridas. A OMS propôs até uma redução maior, para menos de 5%. Como cada grama de açúcar refinado rende quase 4 quilocalorias (kcal), a quantidade máxima recomendável para um adulto (com uma dieta de 2.000 kcal/dia) seria de 50 gramas de açúcares — metade no caso de jovens e ainda menos no caso de crianças (sempre de forma aproximada).

Com um iogurte e um petit suisse de manhã, uma criança de quatro anos já consumiu mais açúcar que o recomendado — e ainda falta o dia inteiro para comer. Esse é um dos resultados obtidos por um grupo de pesquisadoras de nutrição após analisar a informação nutricional de 898 iogurtes e similares, como petit suisse, iogurtes líquidos, de soja, orgânicos e outras sobremesas lácteas. Apenas os iogurtes naturais e gregos cumpriram com a recomendação da OMS e do Sistema de Saúde Britânico (NHS, na sigla em inglês) de no máximo 5 gramas de açúcar por 100 gramas de produto. 

Como era previsível, as sobremesas lácteas, com uma média de quase 20 gramas de açúcar em cada 100 gramas de produto, foram as mais açucaradas. Mas, em segundo lugar, empataram os iogurtes de sabores e aqueles rotulados como orgânicos ou ecológicos, seguidos bem de perto pelos que incluem pedacinhos de fruta, todos em torno de 13 gramas de açúcar. Entre os produtos à base de soja e similares, embora estivessem dentro do limite máximo, nenhum era baixo em açúcares, segundo os resultados do estudo, publicado na revista médica BMJ Open. 

Mas o dado mais surpreendente está relacionado aos iogurtes e queijos frescos destinados às crianças: dos 101 produtos dessa categoria tão sensível, só 2 tinham menos de 5 gramas de açúcar para cada 100 gramas de produto. A média foi de 10,9 gramas. Em comparação, uma garrafa de um refrigerante de cola convencional tem 10,6 gramas de açúcar por 100 mililitros. Embora litros e quilogramas não sejam equivalentes, a quantidade de açúcar de iogurtes e refrigerantes é muito parecida. Desde abril, as autoridades sanitárias britânicas impuseram uma taxação progressiva sobre os refrigerantes que contêm açúcar.

“Iniciei esta pesquisa quando o Governo britânico apontou os nove principais produtos [entre eles, os derivados de leite açucarados] que contribuíam com a maior parte do açúcar ingerido pelas crianças e, como muitos pais, considerava que os iogurtes eram algo saudável, sem me dar conta de todo o açúcar adicionado que a maioria tem”, diz a doutora Bernadette Moore, pesquisadora da Escola de Ciências da Alimentação e Nutrição da Universidade de Leeds (Reino Unido) e principal autora do estudo. Nesse país, as recomendações do NHS são de que as crianças de sete a dez anos consumam no máximo 24 gramas de açúcares adicionados; as de quatro a seis anos, no máximo 19 gramas; e as menores de quatro anos, zero açúcar adicionado.

As autoras do estudo destacam o paradoxo dos iogurtes vistos como mais saudáveis, como os derivados da soja e os orgânicos. Sobre estes, a pesquisadora de nutrição Annabelle Horti, coautora do estudo, comenta em uma nota: “O açúcar costuma ser usado como adoçante para contrabalançar a acidez natural do ácido láctico produzido pelas culturas presentes no iogurte. São estes microrganismos que fazem com que o iogurte seja algo bom para o aparelho digestivo, e eles tendem a estar presentes em grandes quantidades nos iogurtes orgânicos. É provável que tais iogurtes tenham mais açúcar adicionado para neutralizar essa acidez”.

A especialista em nutrigenômica e colaboradora do EL PAÍS Lucía Martínez lembra que os iogurtes e similares “têm muito marketing, tanto institucional como das empresas de laticínios, que são muito poderosas”. Para ela, só os iogurtes naturais, queijos frescos, o quefir e o autêntico iogurte grego são saudáveis. E, se você quiser adoçá-los, “use frutas, mas que sejam da feira”. Aos pais de crianças pequenas, a doutora Moore dá o mesmo conselho: “Se estão começando a comer sólidos, deve-se dar a elas iogurte natural com fruta esmagada”.

10% mais ricos contribuem para mais da metade da desigualdade no Brasil

quinta-feira, setembro 20, 2018

É o que mostra pesquisa do Ipea. Apenas os 5% mais abastados respondem por mais de 45% da diferença







Os 10% mais ricos da população brasileira respondem por 51,5% da desigualdade de renda total do país, uma das mais altas do mundo. É o que revela um estudo inédito publicado pelo Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea). Esse percentual é maior do que o encontrado em outros países, como Estados Unidos (45%), Alemanha (44%) e Grã-Bretanha (41%). A pesquisa ainda constatou que a maior parte desse contribuição está na metade mais rica do grupo abastado (no 5% do topo), que responde por mais de 45% do índice de desigualdade. No ano passado, quem recebeu mais do que 5.214 reais por mês estava entre os 10% mais ricos do Brasil.

Os dados foram medidos por um indicador ainda pouco utilizado na literatura socioeconômica, a J-divergência, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, entre 1981 e 2015. Diferentemente de outros índices utilizados no mundo para aferir o tamanho da desigualdade, como o Gini, a J-divergência consegue, a partir de dados amostrais, estimar quanto da disparidade total vem de cada pessoa ou de cada grupo, definido por faixas de renda. "Ela compara a distância da renda de cada indivíduo com a média de renda do país [o rendimento domiciliar per capita do Brasil ficou em 1.268 reais em 2017]. Conhecer a contribuição do grupo mais abastado, por exemplo, pode ajudar o país no redesenho de suas políticas redistributivas, como impostos progressivos sobre renda e patrimônio", explica um dos autores do estudo, o técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Carlos Henrique Corseuil.

Entre 2001 e 2015, as contribuições dos 10% mais ricos, dos 10% mais pobres e dos 80% do meio na distribuição da renda mensal declinaram em termos absolutos.  No entanto, a pesquisa revelou que a contribuição para a disparidade tanto do grupo dos 10% mais ricos como dos 10% mais pobres aumentou proporcionalmente. Os 80% do meio reduziram sua participação na desigualdade (de 31,5% para 28,1%), mas o que foi compensado por aumentos nas participações do grupo mais pobre (de 17,6% para 20,4%) e do grupo mais rico (de 50,9% para 51,5%). Os pesquisadores admitem que não sabem explicar o porquê desse movimento. Ainda serão necessárias novos estudos para entender os indicadores.



A preponderância dos mais ricos sobre o nível e a trajetória da J-divergência pode ajudar, segundo os estudiosos, a compreender o que, afinal, aconteceu com a desigualdade de renda no Brasil desde o início deste século. Pesquisas mostravam até 2014 uma queda considerável na desigualdade, sobretudo quando a medida usada era a Pnad anual, os dados mais usados até então para acompanhar o fenômeno. Muitos trabalhos destacam o papel dos aumentos reais de salário mínimo e de benefícios atrelados a eles para justificar o recuo da desigualdade. No entanto, o estudo "A desigualdade é mais alta e estável do que se imaginava" de Marcelo Medeiros, Pedro Souza e Fábio Castro, divulgado em 2015, apontou estabilidade da desigualdade no período. No caso da última pesquisa, as rendas dos 10% mais ricos encontradas na Pnad são substituídas por estimativas a partir de tabulações anuais do Imposto de Renda – Pessoa Física (IRPF). "Este trabalho não permite responder definitivamente se o verdadeiro índice de Gini das rendas caiu ou não no Brasil, mas pode ajudar a qualificar melhor a discrepância entre as histórias contadas pela Pnad e pelo IRPF e as conclusões tiradas a partir destas", escrevem os autores do estudo inédito.

Na avaliação de Marcelo Medeiros, o novo estudo é importante para realmente saber quais os dados de renda da camada mais alta. "Se você quiser estudar a desigualdade, você terá que olhar para os mais ricos". O pesquisador ressalta, entretanto, que, mesmo com maior conhecimento do diagnóstico,  não há fórmula mágica para combater a desigualdade. "É um conjunto de políticas muito grande que vai ter que ser combinado e mantido de maneira persistente para causar de fato uma redução da desigualdade. A mudança na tributação sozinha não resolve. Apenas o conjunto de todas elas", explica.

Após quatro séculos, pesquisadores descobrem causa da morte de Caravaggio

quinta-feira, setembro 20, 2018

Pintor italiano morreu de infecção, segundo estudo de um centro de pesquisas francês





Os historiadores precisarão reescrever as frases finais da biografia do grande pintor barroco Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio (1571-1610). Um novo estudo realizado por um prestigioso centro hospitalar e universitário, o Instituto IHU Méditerranée Infection de Marselha, conduzido por sete cientistas franceses e italianos e publicado nesta semana pela revista Lancet Infectious, demonstra que o artista italiano não morreu de sífilis, como se acreditou durante quatro séculos, e sim por uma infecção que contraiu durante uma briga na qual foi ferido com uma espada. Conhecido por seu temperamento fogoso, que lhe custou vários exílios na vida, o pintor faleceria poucos dias depois numa pequena localidade da Toscana, aos 39 anos.

O segredo estava na sua arcada dentária. A equipe de pesquisadores examinou a polpa de seus molares, caninos e incisivos, onde abundam os vasos sanguíneos, para descobrir a causa real de sua morte. “Isso permitiu detectar os micróbios que o organismo do pintor continha no momento da sua morte”, disse na terça-feira um dos autores do estudo, Michel Drancourt, professor de microbiologia médica. A partir dessa amostra extraída de seus dentes, foi examinada, em primeiro lugar, a presença de sífilis, malária ou brucelose, que eram algumas das hipóteses mais habituais sobre a morte do pintor. “Mas todos os exames deram negativo. Foi ao utilizar métodos mais amplos de análise do DNA que começamos a obter as pistas que nos levaram a esta conclusão”, acrescenta Didier Raoult, diretor desse instituto marselhês especializado na chamada paleomicrobiologia. “Utilizamos técnicas próprias da polícia científica para resolver mistérios do passado”, resume. Neste caso, o assassino era o Staphylococcus aureus, uma bactéria.

Antes de fazer a análise, foi preciso encontrar o esqueleto de Michelangelo Merisi da Caravaggio. Uma equipe dirigida pelo microbiólogo italiano Giuseppe Cornaglia conseguiu localizá-lo num cemitério de Porto Ercole, a localidade da Toscana onde morreu após fugir de Nápoles. Essa equipe fez uma triagem dos restos mortais encontrados, selecionando apenas os esqueletos correspondentes a um homem de 1,65 metro de altura e idade entre 35 e 40 anos no momento de sua morte. Encontraram nove ao todo, mas só um deles datava do século XVII, segundo o exame de carbono-14. “Uma comparação genética com os habitantes de Porto Ercole que têm o mesmo sobrenome que Caravaggio [Merisi ou Merisio] permitiu confirmar que se tratava, com altíssima probabilidade, do esqueleto do pintor”, conta Drancourt.

A análise de cadáveres de outros séculos não é só uma curiosidade. Ela permite entender melhor as epidemias do presente, porque “observar o que aconteceu no passado nos pode ajudar a combater o que acontece hoje em lugares como Madagascar”, segundo Drancourt, numa referência ao recente surto de peste bubônica e pneumônica na ilha africana. “Na verdade, não temos um gosto específico pelos personagens históricos. Em 98% dos casos, os estudos são feitos com os corpos de pessoas anônimas”, afirma o especialista.

A nova hipótese sobre a morte do artista não entusiasma muito Pierre Curie, grande especialista em pintura italiana do século XVII e conservador do Museu Jacquemart-André de Paris, que nesta quinta-feira inaugura uma exposição que inclui 10 obras de Caravaggio procedentes dos maiores museus italianos. “É fruto de um fetichismo que não contribui muito nem para a glória do artista nem para a história da arte. Acho insalubre ficar procurando esqueletos em cemitérios”, disse Curie, partidário de deixar os cadáveres em paz, embora não acredite que as investigações sobre o pintor tendam a acabar. “Haverá outras no futuro, porque não sabemos grande coisa sobre sua vida. Caravaggio é um personagem que nos escapa. E talvez seja melhor assim, porque isso nos permite projetar o que quisermos na obra desse grande pintor”. Sua lenda tem, a partir desta quarta-feira, um final diferente.

 
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